Capítulo Um - Parte 04

1.6K 106 8
                                    


Depois de uma pequena pausa ela voltou a falar:

— George ficou arrasado. Ele tinha problemas no coração, e o choque com a morte de Edgar acabou provocando um ataque cardíaco. Então os médicos o aconselharam a vender o hotel e se tratar. George ia fazer um bom negócio com essa empresa de construção, tendo em vista a decadência do ho­tel, e queria garantir o futuro do meu filho. Pretendia arranjar um bom lugar para nós três morarmos e dar metade do di­nheiro para seu outro filho, Rafael. Só que ele morreu um mês antes de nos mudarmos, e Rafael, que só veio ver o pai no leito de morte, apareceu para se apropriar da herança. Disse que antes de morrer o pai tinha lhe pedido para não me deixar desamparada, então me deu 500 libras esterlinas e o prazo de uma semana para ir embora.

— E quanto ao testamento?

— George tinha dito que mudaria o testamento — ela disse com um sorriso triste. — Mas acho que nunca o fez, e além disso o documento nunca foi encontrado. Segundo George, no testamento original ele deixava tudo para seus dois filhos, Edgar e Rafael, e naquela época Edgar já tinha morrido, e esse foi o motivo de querer mudar o testamento. Obviamente ele nunca o mudou, e, como o documento não foi achado, pela lei toda a herança iria para o outro irmão.

— E o bebê? Ele não tem direito à metade da herança que seria de Edgar?

— Não necessariamente. Depende do que está estipulado no testamento. Mas, sem o documento, o assunto é discutí­vel. Achei que Rafael fosse ser benevolente com meu filho, em consideração ao pedido do pai, mas pelo visto me enganei. Depois de provar que o filho é de Edgar, vou torcer para que o testamento apareça e que tenha alguma cláusula sobre fi­lhos nascituros.

— Acredita que ainda possa aparecer?

— Acho difícil. Rafael vasculhou tudo à procura dele, pois sem o testamento a validação poderá levar anos, mas ele não encontrou, e agora devem ter resolvido de outra for­ma, pois a construtora começou a trabalhar. E George era tão desorganizado que o documento poderia estar em qual­quer lugar, ou mesmo ter sido jogado fora por engano. Pena que eu não possa entrar lá para procurar. Não posso entrar no prédio principal, apenas no anexo. Não tenho permissão.

— Permissão?

— Os seguranças não me deixam entrar. São as regras da construtora. Não somos amigos.

— Então, o que acontece agora?

— Vou ficar e esperar que Rafael mude de ideia e resolva me ajudar, mas não posso fazer o teste de DNA enquanto a criança não nascer, e até lá já serei obrigada a sair do hotel. Não quero me mudar, porque, enquanto estiver aqui, estou garantida. Por outro lado como vou ter minha filha aqui? E Rafael se recusa a ceder sem testamento válido. Eu não o culpo, pois ele não me conhece. Nós só nos conhecemos no dia do enterro, e não o vi mais desde quando ele destruiu tudo atrás do testamento. Recebi várias cartas ameaçadoras.

Alfonso teve de se controlar para não externar sua opinião e se Rafael aparecesse ali, naquele momento, ele era capaz de acabar com ele. Mas a situação de Anahí era bem mais com­plicada do que ele imaginava. Precisava conversar com Daniel e Augusto, só que agora estava tarde demais. Anahí estava bocejando sem parar, e ele precisava acompanhá-la até sua casa. Casa?

Ele mal podia acreditar que ela estivesse vivendo daquele jeito, com seus poucos pertences espalhados pelo chão, dor­mindo num colchão velho num lugar úmido e fedorento. Não havia energia, nem luz, apenas água, e ainda estavam tentando tirá-la de lá por meios legais. Agora que conhecia o outro lado da história, Alfonso não sa­bia o que deveriam fazer.

— Você está cansada demais, deixe-me levá-la para casa — ele sugeriu, e a viu colocar os restos todos dentro da quentinha e tampá-la.

— É para amanhã, posso?

— Pode levar — ele disse, jurando para si mesmo que resolveria esta questão de uma vez.

Logo que acordasse, Alfonso falaria com os outros sobre esta situação. Se dependesse dele, aquela seria a última noite que lona passaria no colchão reaproveitado naquele quarto úmi­do, com sobras de comida chinesa.

Ela não pretendia deixá-lo entrar, mas ele insistiu em ver se estava seguro, se ninguém havia entrado ali na sua ausên­cia. Em seguida, ele saiu e ouviu o barulho das trancas, e se perguntou contra quem ela estaria se protegendo. Ficou ali pensativo, preocupado com ela, depois se encaminhou até onde deixara seu carro estacionado. O segurança apareceu para saudá-lo quando abriu o carro e as luzes se acenderam automaticamente.

— Está de saída, senhor?

— Sim. Está tudo bem?

— Alguém jogou um colchão na caçamba, mas eu os es­pantei — ele disse. — Eram dois garotos.

Alfonso fez força para permanecer sério.

— Acontece o tempo todo — ele disse acenando e entran­do no carro para ir para casa.

Para sua casa, uma residência recém-construída, de cinco quartos e mais uma ala para hóspedes, com uma linda vista para o mar e apenas um morador.

Ao entrar em casa e acender as luzes, a culpa o consumia. Culpa e vergonha. Não pelo luxo, pois não havia nada disso. A casa era decorada com poucos móveis para não prejudicar a circulação. Tudo bem simples, harmonizando pedra, ma­deira, tijolo e vidro. E vazia.

Daí a culpa, por haver tanto espaço para uma só pessoa, isso era uma obscenidade. Isso e o fato de Anahí, sozinha e sem apoio, estar lutando uma batalha que nunca deveria ter lutado no anexo do hotel, um ambiente sórdido, praticamen­te abandonado. Tinham de lutar, mas não com ela, e sim com o tio da criança que ela esperava.

Precisaria conversar com Daniel e Augusto pela manhã e ver o que fariam, pois ela não podia ficar lá, mesmo sem consi­derar o prazo da reforma e a demolição daquela ala do hotel dentro de duas semanas.

Garantir a sua segurança era imprescindível. Ele cuidaria disso logo pela manhã. Pelo menos, esta noite, não parecia que ia chover. Com a consciência tranqüila, ele subiu, deitou-se e ficou olhando para a lua refletida no mar, se perguntando se ela estava mais confortável no colchão novo e se estava segura naquele quarto sombrio.

De madrugada, quando acordou com o barulho da chuva, Alfonso se perguntou se o reboco do teto da sala estaria intacto ou se teria caído enquanto ela dormia.

Duas horas depois, sem conseguir dormir e se achando um tolo, ele foi até a cozinha e preparou um café bem forte. Depois sentou-se para tomá-lo, com as portas abertas para o mar, e esperou o dia amanhecer imaginando o que poderiam fazer para ajudá-la.

Lar da Paixão (ADP)Onde histórias criam vida. Descubra agora