A gota d'água

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Meus avós maternos sempre estiveram presentes na minha vida e no meu coração

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Meus avós maternos sempre estiveram presentes na minha vida e no meu coração. Moram a cerca de 60 km da minha cidade e, há uns cinco anos, meu avô sofreu múltiplos AVCs. Por ser uma lesão degenerativa, visitá-los aos finais de semana virou rotina sagrada.

As "cordinhas" do meu coração sempre cuidaram de mim como se eu fosse filha, já que meus pais trabalhavam muito para garantir que meu irmão Guilherme e eu tivéssemos conforto e segurança. Comecei a namorar aos 15, mas calma: não é uma lista interminável de garotos. Até hoje só namorei dois, sob a escolta rigorosa e amorosa dos meus pais.

Mesmo no colegial, Nicolas nunca entendeu minhas idas e vindas à cidade dos meus avós — e nem se importou. Eu sempre valorizei o cuidado com os outros. Meu lema: ajudar pessoas é também crescer.

— Ari, você esqueceu da vovó! Quanto tempo não te vejo! — ela me abraçou com força, aquele abraço que podia aquecer o inverno inteiro.

— Nunca te esqueci, vó. Tô atolada de trabalhos da faculdade, nem vejo a hora de acabar! — respondi, olhando aqueles olhos verdes capazes de sugar a alma.

— Cadê seu irmão? — ela perguntou, procurando o pirralho que é seis anos mais novo, tímido na maior parte do tempo, mas um turbilhão de energia perto da família.

— Te achei, garotão! — vovó o apertou cheio de beijinhos.

— Bença, vó! Vai ter rosquinhas ou amendoim com chocolate? — Guilherme perguntou com aquele sorriso travesso que sempre precede o ataque à comida.

— Tava só esperando vocês chegarem pra começar. — Ela foi para a cozinha, e o aroma da comida me transportou para casa, para a infância.

Fui até o quarto do meu avô, beijei suavemente sua testa morena. Ele sempre teve saúde de ferro, alegria infinita, mas hoje só se movimenta graças a espasmos musculares. Meu peito se apertou.

— Bença, vô. Senti saudade, te amo.

Sentei na mesa do quintal e brinquei com minhas priminhas. Quando o almoço ficou pronto, me acomodei junto à minha vó, sentindo seu olhar preocupado:

— Ari, tá tudo bem com você?

— Sim, vó, por quê?

— Tenho a impressão de que você quer fugir de tudo, da casa dos seus pais. Parece cansada... — ela gesticulava, falando comigo como se eu ainda tivesse três anos.

— Só tô nervosa pelo TCC, vó. Tô tentando lidar com isso no meu cantinho. — Bebi meu refrigerante, tentando acalmar o coração.

— Vai dar tudo certo, minha filha. Deus tá no controle. — Ela segurou minhas mãos, transmitindo segurança como só ela sabe.

Quase no fim do almoço, uma notificação do Nicolas me tirou do clima familiar:

12:34 Nico: Vou passar o fim de semana na casa de um brother, tem jogo do Flamengo domingo. Já tô prevendo o desande.

Mandei:

12:38 Ari: Tu tá perto do Hospital HCT, né?

12:40 Nico: Nossa, boa localização! Isso é raro em uma mulher.

Ignorei o comentário, respirando fundo. Meu cérebro fervia com a tese do TCC. Farmácia nunca foi o sonho — era medicina ou nada. Mas esse desejo policial, que dormia em mim, começou a acordar. Ano que vem, se Deus quiser, vou prestar o concurso da Polícia Federal. Treino para o TAF e para a prova há dois anos, mas as vagas no meu estado são zero. Teria que viajar para a cidade do concurso, três dias de pura adrenalina.

O fim de semana passou voando, e a realidade bateu quando ouvi meu celular tocar:

— Tô com saudade, quero te ver logo.

— Pode assumir, eu sou a graça da sua vida. — Brinquei.

— Não, da minha vida não. — Disse ele, seco.

— Só tava brincando. — Respondi desapontada.

— Não vou ficar sendo fofinho com você o tempo todo, é bom ser pé no chão.

— Ok. Nos vemos terça à tarde, depois da minha aula de microbiologia. Te encontro no shopping, às 15h. Beijos. — desliguei, fria.

"Esse traste acha que sou só um par de pernas, pronta pro disk sexo. Ah, está enganado. Nem pra pau amigo ele serve. Quer saber? Foda-se. Não mereço. Tomara que tenha lavado a boca antes de me beijar, porque só fala merda."

Mandei mensagem avisando que não daria para vê-lo — aconteceu um "imprevisto". 

Só se for pra próxima vida...

PERIGO AMOR EMINENTEOnde histórias criam vida. Descubra agora