Flashback

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5 anos depois...

Às 18h eu já estava pronta e cheirosa, usando um vestido justo, vermelho, trançado até a metade das costas. Assim que calcei minhas sandálias, Nicolas mandou mensagem avisando que já estava na porta. Ironia acreditar que eu resistiria à sua lábia... olha eu pagando língua ao amarrar a fivela do salto alto para encontrá-lo outra vez.

Disse aos meus pais que iria a uma pizzaria com minhas amigas da faculdade e dormiria na casa da Rafa.

Entrei em sua BMW série 3, bancos de couro impecáveis, e me acomodei naquela "aeronave". Fomos a um barzinho perto do prédio dele: pedi batata frita com cheddar e uma Pepsi; ele, todo cheio de classe, escolheu bobó de camarão com vinho merlot.

— Eu mal posso esperar para dar o fora daqui com você e devorar a minha sobremesa. — sussurrou, beijando a curva do meu pescoço antes de bebericar o vinho.
— Pela sua cara de safado, não duvido que queira enfiar o dedo no bolo antes de ser servido. — retruquei sorrindo de lado, certa de que entendeu o duplo sentido.

Enquanto esperávamos, rimos, nos provocamos e nos beijamos entre uma conversa e outra. A química era inegável: fogo e gasolina. Quando não estávamos discutindo, estávamos nos devorando.

No apartamento dele, foi exatamente como imaginei: tesão avassalador, sem freio. Eu ainda não tinha coragem de contar que continuava virgem, sempre neurótica com a ideia de uma gravidez indesejada. A lembrança do medo que carregava desde os 15 anos me acompanhava. Por isso, assim que recebi meu primeiro salário, marquei ginecologista e comecei a tomar anticoncepcional religiosamente.

Nicolas me desejou como se eu fosse a mulher mais gostosa do planeta. Seus beijos desciam lentos, as mãos explorando meu corpo até parar e me olhar divertido, mantendo meu quadril aberto contra o dele. Conduziu-me até a suíte e, sem desviar os olhos dos meus, foi se despindo. Bastou aquilo para que eu o agarrasse pelos cabelos e perdesse o controle.

Entramos no banheiro nus, descabelados. Antes que eu notasse o chuveiro, ele já me prensava contra a parede.
— Ari, você não sabe o quanto eu queria te foder aqui todas as vezes que tomava banho. — disse, segurando meus cabelos para beijar meu pescoço.
— E você não tem ideia do quanto já quis te ver só com esse brinquinho, sorrindo daquele jeito que só você sabe. — respondi, a voz falhando entre o prazer e a confissão.

As carícias se prolongaram. Demoramos a sair do banho. Quando voltamos ao quarto, eu já usava um de seus blusões largos. Ele, apenas de cueca Calvin Klein, taça de vinho branco na mão e músculos que pareciam me hipnotizar. Quem o conheceu gordinho, anos atrás, não acreditaria no que eu estava vendo ali, enquanto tudo em mim pulsava.

— Eu gosto de você, do seu beijo, da sua companhia, do seu cheiro... — disse, andando devagar até mim, os ombros caídos. — Confesso que gosto mais ainda quando está perto.

Mas, por trás da cena perfeita, existia a realidade: meus pais o odiavam. Só imaginar que eu pudesse estar com ele seria motivo de guerra em casa.

Nicolas, sempre agitado, rodeado de amigos, queria que todos vivessem no mesmo ritmo que ele. Eu não podia.

— Eu tento, meu anjo... mas não é fácil com meus pais me vigiando o tempo todo. — confessei, triste.

O silêncio que eu mantinha para evitar brigas já tinha virado hábito, mas custava caro: afastava até minha família.

— Parece que eu tento sozinho. Gosto de estar perto de quem gosto, longe de quem odeio. Se a gente não se encontra, fica difícil manter o vínculo. — retrucou.

Respirei fundo, mas perdi a paciência.
— Deve ser um porre se relacionar com alguém que não entende outra realidade, outra família, outros compromissos.
— É um porre se relacionar com quem não está presente. — ele respondeu duro.

— Engraçado... você mesmo disse que não temos um relacionamento.
— Você entendeu. — retrucou sério.

As discussões eram as mesmas de anos atrás.
— Você não imagina o desgaste que tive com um namorado que me pressionava o tempo todo. Pelo visto, nada mudou.
— Um namorado que queria uma parceira, não uma turista. — rebateu de imediato.

E lá estávamos nós, presos ao mesmo ciclo.
— Eu sou tudo isso, mas ainda moro com meus pais. Não posso fazer tudo o que quero. Você só exige que os outros se desdobrem por você, mas empatia? Jamais.

— Nada a ver! — ele negou com a cabeça. — Não vou ter empatia por você porque, sinceramente, lutei para conquistar minha liberdade. Você não é obrigada a fazer o mesmo, mas poderia tentar. Não acredito que goste da vida que leva... 23 anos e sem poder sair quando quer?

— Eu já tentei, e foi um inferno! — gritei, cansada.
— E desistiu? — ele arqueou as sobrancelhas.
— Não quero me expor mais. — desviei, tentando escapar de seus braços.

Ele me segurou firme.
— Ari, eu aguento teus dramas porque sou apaixonado.
— Você sabe que não vai rolar. — respondi, furiosa.
— Você é difícil e me confunde.
— Tu merece alguém que entre nas tuas loucuras, sempre no pique, sem querer te mudar.
— Calma, não tô pedindo pra casar. Só um desabafo: você merece alguém que te admire. - Eis aí, meu ex namorado acabara de dizer que na verdade me odiava. 

Foi um balde de água fria. E eu prometi a mim mesma: seria a última vez que me desgastaria por quem só tirava minha paz.

Naquela noite, deitei pensando no trabalho, na faculdade que entrei por falta de opção mas que me trouxe frutos — como as quatro especializações em línguas. Ainda assim, a bagunça no meu coração me pesava. Eu precisava resolver.

Amanheceu.

De calcinha e com uma blusa dele, observei o nascer do sol pela janela. Estava claro: nós não daríamos certo. Aqueles sinais que toda mulher sente desde o início estavam passeando em minha mente. Não precisava repetir. Mas só de imaginar que sim... um friozinho ainda percorria meu corpo.

Só não fazia mal a ninguém. Só a mim. Então, que fosse.

PERIGO AMOR EMINENTEOnde histórias criam vida. Descubra agora