— Grace eu... — A porta foi aberta de supetão, revelando Cornélia completamente confusa com a cena inusitada que se deparou. Eu e Elizabeth abraçadas, era quase que um milagre. Para quem vivia brigando, estávamos tendo um momento de paz.
Era engraçado pensar em paz em meio a toda aquela confusão.
— ...Fiz um chá para você se esquentar. — Me estendeu a xícara grande, sorrindo.
Fungei o nariz e passei as mãos pelo rosto, disfarçando meu choro. O que com certeza não consegui ao julgar pelo olhar curioso da menina.
Elizabeth tinha razão, por mais difícil que fosse de aceitar, ela estava certa quando jogou na minha cara que eu já não cuidava das meninas como antigamente. A própria Cornélia já havia me dito aquilo, porém, longe de Harry e de seus efeitos sobre mim, eu pude perceber tudo o que antes parecia indiferente para mim. Sentia-me mal por aquilo, ter negado atenção a quem realmente importava, quem estava comigo antes mesmo de ele aparecer na minha vida e quem ficou mesmo depois da sua partida.
— Muito obrigada meu amor. — Sentei-me na cama, bebericando o líquido quente e aproveitando o vapor quente que subia até meu rosto. Suspirei, um pouco mais reconfortada.
As duas ainda me encaravam, caladas. Elizabeth ainda tinha o envelope nas mãos, que ela tinha colocado para trás de seu corpo para esconde-lo. Já Cornélia, desde cedo, parecia incomodada com algo, ansiosa.
— Eh...Grace, eu queria falar com você sobre algo... — Seu olhar pairou pelo quarto e parou em Elizabeth, que por sua vez olhou para mim.
Não podia e nem devia deixá-la sair com aquele envelope daquele quarto. Não antes de tentar convencê-la a me ouvir. Ela poderia contar a Juliet, ou até mesmo se desfazer da carta, e eu não iria permitir que aquilo acontecesse. Tinha me arriscado demais roubando-a para enfim descobrir toda a verdade.
Eu sentia que tinha algo errado, e não gostava nem um pouco daquela sensação que me acompanhava desde quando cheguei naquela casa e com o tempo foi só crescendo.
— Pode falar. — Lhe sorri fraco, observando-a remexer as mãos nervosa.
— A sós. — Encolheu os ombros e Elizabeth revirou os olhos, já indo em direção a porta.
— Não! — Num pulo, levantei-me da cama quase derramando o chá em mim. Fui até ela e a impedi de continuar seu caminho até a saída. — Pode falar na frente dela, está tudo bem.
Afinal, Elizabeth já conhecia todos os meus segredos. Harry era o principal deles até então, e, mesmo que involuntariamente, ter dividi-lo com ela fazia-me querer chorar. Saber que se as coisas fossem diferentes eu poderia enfim contar a alguém o que tivemos, com detalhes e destacando cada palavra bonita que saíram de seus lábios macios, como eu tinha planejado antes de tudo desmoronar. Eu até poderia contar a elas, mas o sentimento jamais seria o mesmo. Não depois de toda a destruição que Harry causou.
Eu sabia que iria doer lembrar, porém sabia que não o tiraria da minha cabeça tão cedo. Para mim foi especial, para mim foi de verdade. E infelizmente meu coração não iria me permitir fingir que não tinha acontecido nada.
— Tem certeza? — Indagou, contrariada. Assenti com a cabeça. — Tudo bem, mas, por favor, não conte para Juliet! — Claramente se direcionou a Elizabeth, que me olhou brevemente antes de concordar silenciosamente. — E-Eu ajudei o soldado a fugir. — Apertou os olhos encolhida.
— Cornélia!
— Fale baixo! — Repreendi a mais nova. Daquele jeito causaríamos alardes e a última pessoa que eu queria participando da nossa conversa era Juliet. — Você o que?
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The enemy | H.S.
RomanceO ano é 1940, o mundo vive os horrores da Segunda guerra mundial. Com temperaturas insuportavelmente baixas, a União Soviética decide ordenar que todos deixem suas casas e destruam qualquer coisa que possa ser proveitosa ao inimigo. Grace Dubrov é l...
