Capítulo 2: Onde Morrem os Segredos

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O sorriso de mil estrelas, a beleza clássica de uma deusa renascentista, a inteligência como legado familiar e olhos castanhos banhados de falsa inocência - assim poderia ser descrita Daphne Clair. Um enigma encantador para quem a via de fora. A queridinha da família, doce para quem merecia, voraz com quem ousava cruzar seus limites.

Mas nada disso importava agora.

Naquele momento, Daphne era apenas uma prisioneira. Uma jovem trancada em uma cela de concreto úmido, sob o olhar vigilante de câmeras e de homens que perderam qualquer traço de humanidade. Estava prestes a morrer - executada em segredo por crimes que talvez nem tivesse cometido.

Sentada no canto da cela, Daphne encarava a bandeja à sua frente. Era sua última refeição do dia - se é que se podia chamar aquilo de comida. Uma pasta sem cor, sem cheiro, sem sabor. Lembrava ração animal misturada com serragem. A tigela estava manchada, e o cheiro azedo do metal oxidado subia das laterais.

Mas pior do que o gosto era o ambiente.

Gritos ecoavam pelos corredores. Homens e mulheres implorando, chorando, enlouquecendo. Alguns rezavam em línguas esquecidas. Outros cantavam, riam, batiam contra as paredes. Era como viver dentro de um pesadelo contínuo. Um onde o despertar significava apenas a morte.

A Área 66 não existia oficialmente. Localizada entre a Alemanha e a Polônia, era um complexo subterrâneo isolado, cercado por mata fechada e protegido por militares que não usavam insígnias. Um lugar onde o direito morria. Onde o silêncio era comprado com sangue.

Era o segundo maior centro de operações encobertas do mundo. O primeiro - dizem - ainda era o famoso laboratório da América do Norte, mas mesmo assim, poucos se arriscavam a falar sobre o que acontecia ali.

A Área 66 era o túmulo dos segredos do mundo.

Daphne levantou devagar, levando a bandeja até a abertura inferior da cela. Os tornozelos doíam pelas correntes apertadas. Mesmo com a execução marcada para dali a poucos dias, ela ainda era forçada a comer. No começo, se recusava. Gritava. Lutava. Mas a dor dos choques, das agressões e dos abusos foi suficiente para domá-la.

Agora, apenas obedecia.

- Olha só, a bonequinha comeu tudo. - zombou o carcereiro ao pegar a bandeja. O som da voz dele era viscoso, como algo que escorria da parede. - Que princesinha obediente. Sinto falta dos dias em que você gritava mais...

Ela não respondeu. Continuou deitada, o corpo coberto, fingindo estar dormindo. Sua mente flutuava entre o medo e o desejo de desaparecer.

- Ignorar não é legal, amorzinho - continuou ele. - Acho que vou te fazer uma visitinha mais tarde, quando o silêncio for mais... íntimo.

Daphne apertou os olhos, as lágrimas forçando caminho pelas pálpebras. Silenciosas, quentes, inevitáveis.

Naquela noite, ela desejou a morte. E depois, desejou que ninguém jamais sentisse o que ela sentia.

Tentando afastar os pensamentos escuros, recorreu à oração de sua avó - aquela que a embalava nos dias tristes da infância:

"Nossa Senhora, tu conheces a minha tristeza...
Essa tristeza que invade meu coração...
Coloca tuas mãos nas feridas que me fazem ser tão sensível...
Liberta-me da lembrança amarga,
Dos temores do amanhã,
E ensina-me a viver o hoje...
Amém."

Mesmo sem ser religiosa, a prece era seu último abrigo.

Naquela noite, o carcereiro não voltou. E por um instante, o silêncio foi quase gentil.

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora