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— Obrigado! — disse Gio quando entramos na loja de bebês.

— Extraguei seu casamento? — falei.

— Não, me livraram, isso sim.

— É difícil encontrar mulheres como você hoje em dia! — disse Flávia. — Outra estaria aos prantos.

— Não, outra estaria ainda com ele, sendo submissa. Eu sabia que ele não gostava da ex-mulher e que seu filho não o queria como pai, que Cadu o odiava.

— Então ele mentiu para você? — disse Flávia. — Sempre um mentiroso.

— Sabe a história verdadeira?

— Cadu sempre foi um menino amável, sorridente, brincalhão. Um dia, eu fui passar o final de semana na casa deles e encontrei o Cadu tristonho. Ele não me contou o que havia acontecido. Como ele nunca foi afeminado, não desconfiávamos que era gay, mas meu irmão pegou o diário dele e leu.

— O que dizia?

— Ele contava para o diário que algumas garotas queriam ficar com ele, mas ele não conseguia. Preferia beijar qualquer garoto da escola a uma delas, por mais bonita que fosse. Então, meu irmão pagou alguns caras para dar um susto nele. Apertaram-no todo, foi quase um estupro. Mesmo não havendo a relação física, abusaram dele.

Depois de mandar esses caras, meu irmão pagou para um dos garotos da escola o apertar e beijar, e armou tudo para pegar esse beijo. Cadu não queria ser beijado, então o garoto, como era maior e mais forte, o encurralou e forçou o beijo. Meu irmão apareceu na hora, como combinado, levando Cadu a socos e pontapés para casa.

Minha cunhada... a ex-cunhada, chegou em casa bem na hora em que Cadu estava quase por desmaiar e começou a bater nele. De onde ela tirou força eu não sei, mas ela o enxotou da casa na mesma hora, queimou suas roupas e documentos, e o denunciou na polícia. Ele ficou proibido de chegar perto deles. Então, ele veio para cá, ficou comigo, sem me contar o que tinha acontecido. Quando eu descobri a verdade, ele já tinha saído da minha casa.

— Ele é um monstro!

— Infelizmente, sim. Meus pais devem ter um desgosto enorme pelo filho que tanto amaram.

— Isso é muito triste. Fico feliz que estou livrando meus filhos dessa sina.

— Gostei de você, Gio! — disse Flávia.

Cadu me olhou carregando inúmeras sacolas da loja de bebês e revirou os olhos. Sorri, e ele veio me ajudar.

— Desta vez, a culpa não foi minha! — disse tia Flávia, livrando-se de uma bronca. — Niko fez uma amiga.

— Sei!

— Verdadji! — falei, beijando-o.

— Amo seu sotaque! — sussurrou ele, me deixando corado.

Quando subimos para a casa da tia Flávia, Anelise estava com os pés para cima em um banco, parecendo umas bolas. Enquanto Mama fazia o jantar, fiz uma massagem nos pés de Lise.

— Ai...

— Te machuquei?

— Não! — disse ela, baixando os pés num fôlego só. Apertou a barriga. — Acho que Amira chutou minhas costelas.

— Quer ir ao médico?

— Não, já passou.

— Vou marcar um ultrassom! — disse Flávia.

— Acho que não precisa.

— Quero ver minha sobrinha-neta.

Sorrimos ao ouvir Mama nos chamando para comer. Cadu ajudou Lise a se levantar. Estávamos cada vez mais preocupados com ela. Flávia contou o que houve no shopping, ocultando algumas ofensas que recebemos. Minha sogra ficou revoltada e, ao mesmo tempo, feliz pela moça.

Mais tarde, no quarto, Cadu me apertou. E como jurei não mentir para ele, eu contei a verdade.

Enquanto conversávamos, Cadu esfregava os braços, arrepiado. Tive uma má sensação também. Cadu mandou mensagem para Lise para saber se estava bem, e ela estava. Então, Cadu deitou ao meu lado, tristonho, e começou a me contar algumas coisas que fazia com seu pai quando criança. Eu o ouvi atento às histórias, até que ele adormeceu.

Quando seus olhos me encontramOnde histórias criam vida. Descubra agora