"Entendo como se sente em relação a escrever cartas. Convenhamos, não era bem assim que imaginei receber cartas suas.
Sei que não está bem, não precisa se fazer de forte o tempo todo.
Entendo que essa é a situação mais agonizante que alguém poderia passar, mas nós dois sabemos o que você pode fazer.
Não parece que dois meses já se passaram.
Todas as vezes que penso ter o controle de tudo, o tempo que eu pensei que tinha, sumiu por minhas mãos.
Ouvi de Rodolfo que na última visita ele soube que havia brigado e eu espero que não eu não seja o motivo.
Toda aquela história acabou, Rafael. Eu superei e aprendi com tudo isso, agora você deve fazer o mesmo.
Isso vai nos perseguir pelo resto da vida, mas também é uma prova que somos mais fortes do que o que tentaram fazer de nós.
Pra ser sincera, só estou em pé hoje porque acreditei em você e agora preciso que acredite em mim.
Esse é o nosso ponto de partida.
Agora tenho a certeza que posso ficar do seu lado pelo resto da minha vida.
Somos nós agora.
Enfim, Guilherme pediu para que eu ajudasse ele escrever pra você. Na segunda folha, as palavras são as dele.
Nosso garoto está mais inteligente e esperto. Não sei o motivo, mas ele anda perguntando muito sobre o avô e sobre o que Inácio ainda quer com ele. Guilherme começou a se interessar pelo que acontece na empresa e eu confesso que estou meio perdida.
Ainda não aprendi a como se a "tia-mãe" dele.
Se quer saber, agora mesmo ele esta deitado no sofá do escritório, dormindo enquanto escrevo.
Acredito que já saiba, mas Aline está grávida e nos convidou para sermos padrinhos das crianças. Rodolfo garantiu a ela que você já estaria em liberdade quando acontecesse, então eu aceitei.
Desculpe por avisar só agora.
Sinceramente, tenho tanta coisa para dizer, que acho que uma folha não consegue expressar.
Encontraram uma pista na cena do crime que diz que mais de duas pessoas estavam lá no dia do incidente.
Existem pegadas de óleo de carro no chão.
Rodolfo disse que estão buscando uma testemunha. Estão revirando as câmeras de segurança para descobrir alguma coisa.
A verdade sempre tem a tona. Não importa o tempo que demore.
Ia esquecendo de falar sobre a empresa. Enfim tenho tentado manter tudo como deixou, mas depois do aumento da inflação tenho tido dificuldade. Não se preocupe, não vou fazer nada sem seu consentimento, mas tem sido dificultoso.
Agatha assumiu o grupo Albuquerque por enquanto. Ainda penso em revindicar minha parte da empresa, mas vou focar na Sanches por enquanto.
Não sei se sabe, mas Haroldo está meio relutante com o relacionamento de Eloise e Arthur.
Tenho feito o que posso para ajudar, mas ela vai desistir se não tiver o apoio do pai.
Arthur tem andado estranho ultimamente. Ele tem passado muito tempo no jardim e quando anoitece, passa horas na biblioteca.
Tenho medo de que ele fique doente.
Bem, não sei se poderia fazer isso, mas dei um descanso a Ana e Haroldo. Eles vão viajar para o sul e ficarão lá uma semana em uma segunda lua de mel.
Acredito que isso possa ajudar Eloise também.
Em relação a Hugo, ele é um bom homem, ainda é difícil lidar com ele, mas está se adaptando.
Já Alan começou a fazer faculdade e está decidido em aceitar morar junto com Hugo.
Realmente não sei o que eles tem na cabeça.
Agora que percebi que você ainda guarda aquela foto do dia do seu aniversário no restaurante.
Me lembro de ter acordado e te ver encarando o teto. Quase caí no chão quando reparei que estava dormindo em cima de você.
Tenho passado muito tempos aqui dentro.
Seu escritório tem o eu cheiro.
Eu sei que não devia, mas não consigo ser forte o tempo todo.
Mas acredito que a minhas lágrimas tem me fortalecido.
Você nem imagina o tanto que sinto uma falta.
Fico encarando a porta, pensando que a qualquer minuto você pode entrar, jogar o paletó sobre o braço do sofá, abrir os dois primeiros botões da camiseta e sorrir quando olhar pra mim.
Sinto falta do teu sorriso.
Volte pra nós. Volte pra mim. Estou te esperando. Amo você.
Miranda Sanches"
Um longo suspiro surgiu do peito do homem ao ler o nome da mulher entre as entrelinhas da carta.
Havia lido as poucas palavras confusas de Guilherme e já esperava algo de Miranda, no entanto não pensou que doeria tanto sentir a falta dela.
Seus olhos encararam a caligrafia perfeita de sua esposa.
Os mínimos detalhes de pontuação até mesmo a letra redonda, tudo o lembrava do rosto de Miranda.
Sentou-se em sua cama e respirou pesado.
Em tudo que fazia ou tentava fazer resultava em Miranda.
Toda sua luta, toda sua esperança, o alvo de toda sua vida era Guilherme e Miranda.
— As notícias não parecem boas.— almirante murmurou sentado em frente a mesa com um copo de café em mãos.
O homem encarava firmemente o livro sagrado sobre a mesa.
Os olhos de Rafael percorram a sala que já se tornava escura.
Os dois estavam sozinhos na cela junto ao silêncio.
— São boas, mas ainda estou aqui!— o empresário disse ao se levantar e caminhar até a mesa.
Puxou uma das cadeiras e sentou-se em frente ao homem.
Em seu pouco tempo na prisão já entendia muito bem as regras.
Almirante, Carlos e Joaquim o explicaram atentamente tudo o que acontecia no inferno e como poderia morrer se ao menos respirar errado.
As histórias contadas ali não era nada comparada ao que já havia ouvido na vida.
Almirante foi indiciado por tráfico de drogas por meio marítimo. Era um dos maiores vendedores de maconha da Espanha, até ser pego em São Paulo e ser detido pela nacionalidade.
Joaquim foi preso por roubar um supermercado com mais sete homens. Levaram mantimentos e dinheiro. Sua esposa sofria de leucemia e morreu quando Joaquim completou três meses na cadeia.
Porém, Rafael se interessou pela história de Carlos, por ser parecida com a sua.
Carlos foi preso por assassinar o pai a sangue frio com doze facadas, depois do homem ter estuprado a irmã mais nova.
Naquele dia, Carlos havia recebido a visita da irmã, esse era o motivo de não estar na cela, enquanto Joaquim estava lavando os banheiros por ter brigado no refeitório.
— As vezes o motivo de você estar aqui não esteja relacionado ao crime diretamente.— Almirante pigarreou ao tocar a bíblia.
Os olhos de Rafael encontraram o livro de capa de couro e a imensa cruz prateada ao meio.
— Acredito que essa não seja as férias que eu precisava!— o empresário balbuciou antes de dobrar a carta e guarda-la em um dos bolsos do uniforme.
Um riso ecoou pela cela. Almirante passou uma das mãos pelo rosto e suspirou cansado.
— Sejamos francos, Sanches, seu inferno está em sua mente.— o homem disse apontando para o rosto de Rafael.— É seus pesadelos que não deixam você dormir. Seu coração está pedindo algo que sua mente não quer aceitar e por isso ainda está aqui. Você não perdoou e não se perdoou!— Almirante disse antes de se levantar e bater na porta na cela, sem esperar a resposta de Rafael.
O moreno ficou alguns minutos encarando a porta, tentando digerir o que acabava de ouvir.
Sentia repúdio em ao menos pensar em Marcos. O ódio por seu irmão ainda corria por suas veias.
Seus olhos voltaram a encarar a bíblia sobre a mesa.
Seu ódio cegava sua alma.
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Amor Meu
RomanceDuas histórias. Dois traumas. Duas almas que, em um beco, presenciam um rumo diferente de seu futuro. Até onde você iria por amor? Rafael Sanches é um empresário forte no ramo da tecnologia em São Paulo. O Leão corporativo não abaixa a cabeça para n...
