Capítulo 29

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William
O sono vem e vai, e minha mão não solta a dela desde que fui permitido entrar no quarto da Maitê.
Parece um aquário, duas das paredes são feitas de vidro, permitindo a todos na UTI ter visão total de minha esposa.
Embora a sua pele tenha recobrado um pouco da cor após as infindáveis transfusões, ela ainda não despertou. Há fios para todos os lados e aparelhos em torno dela. Mal há espaço para mim ao lado da cama. A tomografia computadorizada da noite de ontem não revelou progresso algum, assim como a tomografia da manha. O inchaço não diminuiu e, embora eu me mantenha esperançoso, sei que é improvável que o exame desta manhã mostre algum sinal de melhora.
Já faz dois dias. Preciso ver meus bebês. Preciso dizer a eles que a mamãe vai ficar bem, que ela vai acorda logo e que vamos todos juntos para casa. Mesmo que eu não tenha certeza de se isso é verdade. A dor nos olhos me força a fechá-los antes que mais lágrimas escapem. Eu os impedir de virem aqui, rezando para os médicos me dessem boas notícias e eu não tivesse que mentir para os meus filhos. Mas as notícias que esperei não vieram e eu não posso mais mantê-los longe.
É hora de encarar a minha responsabilidade e dar a eles o que precisam.
Eu. O pai deles.
Estou arrasado por não poder lhes dar a mãe também.
Quando meu celular vibra com uma mensagem de Victória, eu me forço a solta a mão da Maitê e deixar a cadeira. Meus músculos gritam em protesto e meus ossos estalam. Após beijar a testa de Maitê, sigo pelo corredor até a lanchonete onde marquei de encontrar os pais dela com as crianças.
Ouço os gêmeos antes de vê-los, duas vozes chamando meu nome. Paro antes de chegar a eles, vendo o rosto deles pela primeira vez depois de tanto tempo. É preciso muita força para não cair de joelhos. Estou despedaçado, mas não posso deixar que eles vejam.
Luna e Gabriel vêm ao meu encontro e me abraçam forte, ambos com o rosto enterrados no meu peito. A sensação de tê-los comigo me dá um pouco de corforto, mas ao mesmo tempo meu medo triplica, porque agora eles estão aqui. Agora terei que ser homem o bastante para confortar meus bebês quando der a notícia que vai estilhaçar o mundo deles.
Gabriel: Onde está a mamãe? A vovó disse que ela está doente. Doente demais pra nos ver.
William
Fecho os olhos e os puxo ainda mais para perto de mim.
William: Ela vai ficar bem. Confiem no papai. Ela vai ficar bem.
Luna: Eu quero ver a mamãe.
William
Luna se solta de mim, o rosto inchado de tanto chorar.
Luna: Por favor, papai.
William
De repente, isso não soa como uma boa idéia. Maitê não parece ela mesma. Não parece a mãe deles. Eu me agacho diante da minha garotinha, pegando a mão dela.
William: Queridinha, eu acho que ela não... Ela... (Pigarreio, recompondo-me para que as palavras saiam firmes e estáveis.) A mamãe não está no seu normal. Ela perdeu muito sangue, está muito pálida. Muito fraca. (O queixo de Luna treme e eu olho para Victória, sacudindo a cabeça. Não posso permitir que eles a vejam nesse estado. Olhe só o que causou em mim. Eu mal tenho forças para me manter de pé.)
Gabriel: Você não pode nós impedir!
William
Grita Gabriel, afastando-se
Gabriel: Ela é nossa mãe.
William
Meu corpo exausto falha e, antes que eu possa detê-lo, Gabriel sai correndo pelo corredor, com Luna logo atrás. Eu me levanto com esforço e abservo meu menino aguarda que a irmã o alcance, oferecer-lhe a mão e levá-la adiante. O fato de não saberem qual é o quarto da Maitê não os perturba. Assim como o pai, eles são determinados. Também têm um sexto sentido em relação a Maitê. Eles vão descobrir rapidamente onde ela está. Eu os sigo, virando um corredor e os encontrando encostados no vidro, olhando para dentro do quarto de Maitê, de mãos dadas. Estudo-os em silêncio, cada uma das faces uma imagem de puro choque. Então Luna cai no choro e Gabriel se vira para ela, abraçando-a. A visão poderia me derrubar de joelhos, e mais uma vez eu tenho que encontrar forças em algum lugar para me manter de pé. E nesse momento que me dou conta de que meus bebês não são mais bebês. Meu filho de onze anos está controlando as próprias emoções para poder dar conforto à irmã. Meus olhos marejam e eu rapidamente os esfrego para clarear a visão.
Victoria se aproxima e me olha com os lábios apertados. Balanço a cabeça de leve, mostrando a ela o desespero que luto para esconder de meus filhos, antes de ir me juntar a eles. Meus braços cobrem seus ombros e eu os abraço forte, absorvendo os soluços de Luna. Beijo o topo da cabeça dos dois, um após o outro, várias vezes.
William: Ela vai ficar bem. (Seguro o "eu prometo" ao final e me mata ter que aceita que não consigo dizer isso porque jamais quero quebrar uma promessa que faço aos meus filhos.) Vocês estão ouvindo o papai? Ela vai ficar bem. (Palavras estúpidas, porém incontroláveis. Funcionam como uma promessa para os meus filhos. Porque o papai disse e pronto.
Dr.Peters: Sr.Levy 
William
Olho por sobre a cabeça dos gêmeos.
William: Dr.Peters? (Com meus filhos ainda aninhados a mim, faço um gesto de cabeça, perguntando em silêncio se é necessário conversarmos a sós.
Dr.Peters: São boas notícias, sr.Levy.
William
Boas notícias? Olho pelo vidro para o corpo da Maitê, aparentemente sem vida na cama. Ela não parece ter mudado coisa alguma desde que saiu da cirurgia. Inerte. Sem progresso. Boas notícias?
Dr.Peters: A tomografia que fizemos esta manhã mostrou que o edema diminui consideravelmente nas últimas doze horas.
William
Eu me volto para ele e as crianças se desvenculham do meu abraço. Ele fala que as notícias são boas, então por que ainda está tão sério?
William: E?
Dr.Peters: Estamos nos primeiros dias e a extensão dos danos não será clara até que ela acorde, mas é um passo na direção certa.
William
Sei que deveria me sentir aliviado, mas a palavra dano é uma constante em minha mente, como se eles estivesse me preparando para algo.
William: Obrigado, doutor. (Encerro a conversa ali, reprimindo perguntas que quero fazer. Não na frente das crianças. Dirigir meu olhar a Victória, que vem na nossa direção antes mesmo que eu peça.
Victoria: Eu os levarei pra dentro
William
Diz ela, guiando as crianças para a entrada do quarto da Maitê.
Dr.Peters: Eles deviam falar com ela,  Em voz baixa, mas fariam bem em conversar com ela.
William
Victoria leva os gêmeos para o quarto, deixando-me na companhia do médico.
William: Dano (digo, voltando minha atenção a ele.) Diga-me honestamente, qual é a probabilidade?
Dr.Peters: É impossível dizer até que ela acorde. Enquanto estiver em coma, seu cérebro está descansando, dando a ela a melhor chance de se recuperar.
William
Não quero perguntar e não vou. Ela vai acorda. É claro que ela vai acorda.
William: Então o que estão fazendo nesse meio-tempo? (Indago, incapaz de disfarçar a rudeza da voz. É apenas um monte de "se" e "mas". É tudo o que recebo.
Em meio à minha névoa de fúria crescente, que o médico parece um tanto desconfiado de repente, afastando-se, e me dou conta de que estou encarando-o com a mandíbula travada, o corpo projetado à frente.
Dr.Peters: Sr.Levy, nós estamos fazendo todo o possível.
William: E se isso não for o bastante? (Assim que solto as palavras, ouço um grito estridente da mãe da Maitê e invado o quarto como um touro, com o médico logo atrás de mim. Não sei se fico exultante ou aterrorizado com o que encontro. Maitê se contorce na cama, soluçando e aflita.
Dr.Peters: Sr.Levy
William
Sou trazido de volta à vida com o choque de ouvir meu nome sendo chamado de maneira cortante e eu apenas agarro as mãos das crianças, tirando-as do quarto comigo. Não suporto ver Maitê assim, sabendo que não posso fazer porra nenhuma. Sinto-me mais desamparado agora do que quando ela estava inconsciente.
Olho novamente através do vidro em total estado de choque.
Victoria: Vamos tomar um café
William
Sugere Victória, na tentativa de me manter ocupado enquanto os médicos tratam de Maitê.
Olho para cada um dos meus filhos, Luna primeiro, com o rosto vermelho e manchado de lágrimas, e depois Gabriel. Ele está olhando para mim, apertando a minha mão enorme com a mão pequenina dele. Eles me colocaram na rota, trazendo-me de volta para onde devo estar. Assumo novamente a posição ereta e engulo meu choque.
William: Sim, vamos comprar algo pra beber enquanto os médicos fazem o que têm que fazer.
Luna: O que eles estão fazendo?
William
Luna olha para dentro do quarto de Maitê e eu a viro de volta na mesma hora, advertindo-a com os olhos.
William: Ajudando a mamãe (É necessária toda a força do mundo para eu não me virar para olhar também. O que eu já vi vai me assombrar para sempre.
Depois de eu ter de força as crianças a beber água e comer um sanduíche, voltamos à ala em silêncio, minha mente dividida entre o medo e a esperança. Não tenho ideia para o que devo me preparar, o que esperar. E isso me amedronta demais. O desconhecido. A falta de controle.
Chegamos ao quarto da Maitê e o médico está do lado de fora, fazendo anotações. Ele nos olha, sorri discretamente, e o meu medo é vencido pela esperança.
Dr.Peters: Ela se acalmou. Está de olhos abertos, perfeitamente ciente do ambiente á sua volta, e me disse o próprio nome e data de nascimento.
Victoria: Graças a Deus
William
Victoria aperta meu braço, enquanto eu tenho que fechar meus olhos para refrear as lágrimas de alívio que tentam escapar.
Assim que me certifico de que o choro está sob controle, olho para meus filhos, que sorriem.
William: O que foi que eu lhes disse? (Pergunto, sério?) Ouçam sempre o papai, entenderam? (Ambros concordam, abraçando-me, enquanto grito comigo mesmo mensalmente por sequer ter duvidado. Eu sabia que ela não me deixaria. Eu sabia que ela lutaria por mim e pelas crianças.
Dr.Peters: Estamos apenas dando-lhe água e removendo alguns tubos. Podemos volta pra dentro assim que a enfermeira tiver tomado seus sinais vitais. Preciso apenas fazer alguns testes, mais vocês estão convidados a se juntar a mim no quarto dela.
William: Obrigado (digo no fim do fôlego, apertando os gêmeos contra mim.) Muito obrigado.
Dr.Peters: Não há de quê, sr.Levy. (olho para porta enquanto uma enfermeira se retira.)
Podemos ir
William
Respiro fundo, agora ligeiramente apreensivo. Não olho nos olhos da minha esposa há quase dois dias, e só pensar que farei isso agora me deixa parecendo um tolo, patético e nervoso. O que há de errado comigo?
Enfermeira: Ela está chamando pela mãe dela.
William
A minha sogra põe a mão sobre o peito e geme baixinho, tomando a frente, correndo para o quarto da filha. Uma pequena parte de mim está feliz por ela , mas todo o resto está magoado por ela não ter chamado por mim, seu marido, mas desprezo o pensamento bobo e sigo Victória, levando meus filhos. Encontro minha sogra curvada sobre Maitê, tentando abraça-la da melhor maneira possível, apesar dos filhos e tubos. Posso ouvir soluços discretos e sorrio quando ouço a voz da Maitê, não só porque é a voz de minha esposa, embora um pouco rouca, mais porque parece fatalmente coerente.
Maitê: Minha cabeça dói
Victoria: Ah, querida. É claro que dói. Veja quem está aqui.
William
Ela se afasta de Maitê, abrindo espaço para que ela tenha uma boa visão de mim e dos gêmeos.
Eu caminho à frente, desesperado para olhar naqueles olhos, toca-la e senti-la reagir, mesmo que seja apertar de leve a minha mão. Senti tanta saudade dela. Mas quando nossos olhares se conectam, Maitê franze a testa, passando os olhos para as crianças e depois de volta para mim. Eu paro no lugar, observando atentamente enquanto ela parece nos avaliar. Onde está o brilho nos olhos, que eu amo tanto? Onde está o amor? Meu coração murcha até ser um baque débil no meu peito, a alegria definhando da mesma forma. Algo não está certo.
Dr.Peters: Ava, sabe quem é ele?
William
Viro a cabeça de súbito para ele, horrorizado.
William: É claro que sabe. (Disparo, o que ele esta sugerindo? O médico me ignora e se aproxima da Maitê, cujo olhos ainda se alternam entre mim e as crianças. Ainda sem brilho algum. Ainda sem amor.
Dr.Peters: Maitê, diga seu nome completo.
Maitê: Maitê Perroni.
William
Eu recuo, sem saber o que pensar.
O doutor lança um olhar significativo na minha direção. Não sei o que pensar desse olhar também.
Dr.Peters: Maitê, sabe quem é esse homem?
William: O que? (Digo, em horror crescente. Horror esse que atinge picos indizíveis quando minha esposa sacode a cabeça.
Maitê: Não.
William
Entro em pânico, subitamente lutando para conseguir respirar. Não?
Victória: Ai, meu Deus! (Sussura Victoria, vindo até mim com determinação e tomando as crianças para si.)
Victoria: Venham, queridos. Vamos tentar encontrar o vovô.
William
Ela os conduz para fora do quarto, ambos voltando os olhos para mim, o rosto confuso.
E eu fico ali, de pé, inútil, com os olhos fixos na mulher que governa o meu coração, tentando compreender o que se passa. 
William: Maitê... (Mal consigo proferir seu nome, minha mente buscando palavras freneticamente.)
Dr.Peters: Pode me dizer como bateu o carro? (Ela sacode a cabeça de novo)
William
Seus olhos nunca deixam os meus. Eles me mantém congelados no lugar, assimilando a minha presença.  
Dr.Peters: E esse homem não lhe é familiar?
William
Continua o Dr.Peters, fazendo anotações enquanto conversa.
Prendo a respiração, implorando que ela conserte essa situação, rezando para não te-la ouvido corretamente, para que ela esteja apenas confusa. É claro que ela se lembra de mim. Sou o marido dela. Sou o homem que entregaria a vida por ela. Ela precisa se lembrar de mim!
Ela estuda por um momento, olhando-me de cima a baixo, como que tentando me situar. Meu coração se parte.
Maitê: Eu não o reconheço.
William
Ela baixa os olhos para o lençol e as lágrimas inevitáveis começam a alfinetar meus olhos atordoados.
Dr.Peters: Você tem filhos, Maitê? Maitê: Não.
William
Ela quase RI, olhando de relance para mim outra vez.
Meu mundo se desfaz em milhões de pedaços e eu cambaleio até a cadeira mais próxima, sentando-me antes que caia. O olhar dela me segue por todo o trajeto.
William: Você não se lembra de mim? (As palavras saem em um fio de voz.)
Maitê: Eu deveria?
William
Pergunta ela, o riso morrendo e a real preocupação ficando clara em seu tom.
Sua resposta me destrói. Revira meu estômago e arranca meu coração partido do peito. Quero gritar com ela, dizer-lhe que sim, sim, ela deveria se lembrar de mim. De tudo por que nós já passamos. Tudo que já fazemos juntos. Do quanto nos amamos.
Dr.Peters: Maitê, esse é seu marido.
William
O médico aponta para mim, largado na cadeira.
Dr.Peters: William.
Maitê: Mas eu não sou casada.
William
Argumenta ela, parecendo frustada. Frustada? Ela está frustada? Eu me odeio com força neste momento por concluir que ela não faz a menor ideia. Eu me odeio, sem dúvida alguma. Ela não se lembra de mim? Seu marido.
Não suporto isso. Estou passando mal. Saio correndo do quarto, voando pelo corredor, empurrando a porta do banheiro masculino e me jogando para dentro de um dos cubículos. Não como há dias, mas isso não parece ser problema para o meu estômago. Eu vômito e tusso sobre o vaso.
Ela me esqueceu. Esqueceu nossos filhos. Que loucura é essa?
Meu corpo começa a doer com as arcadas de vômito e, quando finalmente aceito que não há mais o que expelir, levanto-me com esforço e vou à piá para lavar o rosto. Olho para mim no espelho. Nem eu me reconheço nesse momento. Estou pálido, os olhos injetados, e pareço exausto. Estou exausto. Já estava quando Maitê acordou, e o pouquinho de vida que recuperei quando ela abriu os olhos foi cruelmente arrancando de mim.
O que eu vou fazer? Como conserta isso? A única coisa neste mundo que mantém meu coração batendo não sabe quem eu sou.
Uma batida à porta faz com que eu desvie o olhar de meu reflexo medonho.
Dr.Peters: Sr.Levy, sr.Levy, está ai?
William
A porta se abre e o Dr.Peters aparece, os lábios se apertam ao ver que tento me manter de pé ao lado da pia.
William: Ela não se lembra de mim, seu próprio marido, e nem mesmo dos nossos bebês? (Engulo o nó na garganta que estrangula cada palavra minha, perguntando-me por que a frase saiu como uma pergunta. Não é que eu não tenha ouvido bem. Não é que eu não tenha visto o vazio em seus olhos quando ela viu a mim e às crianças.
O médico entra no banheiro, fechando a porta lenta e silenciosamente atrás de si. Pigarreando e enfiando as mãos nos bolsos, ele encontra o meu olhar no espelho. Não posso me virar para fitá-lo. Minhas mãos atracadas na borda da pia são a única coisa que me segura.
Dr.Peters: Sr.Levy, parece que sua esposa sofre de síndrome amnésica.
William: O que?
Dr.Peters: Perda de memória.
William: Ah, jura, espertão? (Ele vai mesmo dizer o óbvio? Ignorando minha rudeza, ele prossegue.
Dr.Peters: Após uma conversa rápida com Maitê, parece haver uma divisão clara em sua memória.
William: O que quer dizer com isso? (Pergunto, com a testa franzida.)
Dr.Peters: Quero dizer, pelo que estabeleci até agora, que há um ponto de corte óbvio na memória dela.
William
Ele aponta o lado da própria cabeça.
Dr.Peters: A parte de seu cérebro que armazena certas lembranças sofreu um trauma. Nossa habilidade de acessar lembranças é um processo muito complexo, mesmo sem a desvantagem adicional de um trauma cerebral.
William
Fecho os olhos, tentando assimilar toda a informação.
William: O que está dizendo, doutor?
Dr.Peters: Estou dizendo que sua esposa perdeu os últimos doze anos da vida dela.
William: O que? Esse é meu tempo com ela. Tudo o que me representa, todo nosso tempo juntos. Está me dizendo que ela não vai se lembrar de coisa alguma? Nada?
Dr.Peters: Em sua maioria, os pacientes que sofrem de amnésia como  resultado de um trauma se recupera totalmente. Quanto tempo a recuperação irá levar depende de muitos fatores: a gravidade do ferimento, o estado mental do paciente, suas memórias de longo e curto prazo.
William: A maioria dos pacientes?
Dr.Peters: Maitê é uma mulher jovem e saudável, sr.Levy. tudo conta a seu favor.
William: E se ela não se recuperar completamente?
Dr.Peters: As lembranças continuarão perdidas
William
Ele diz sem rodeios, fazendo-me estremecer.
A vida das crianças até hoje. Eu. Ela perderá tudo isso?
William: E quanto a medicação?
Dr.Peters: Não há presença de enfermidade física ou mental, sr.Levy. Ela não precisa de medicação. Ela precisa da família para ajudá-la a recuperar as lembranças perdidas. Para dar-lhe apoio. Há muitas opções de terapia a serem consideradas, como terapia cognitivo-comportamental, EMDR, psicologia energética, neurofeedback e talvez até hipnose.
William
Esse monte de palavras jogadas não significa nada para mim. Estou perdido nessa loucura.
William: Ela não sabe quem eu sou, o que devo fazer? Levá-la pra casa e torcer que ela se lembre de mim, de uma hora pra outra?
Dr.Peters: É só o que pode fazer, Sr.Levy. Isso e apoiá-la em qualquer das sessões de terapia que decidirmos tentar para ajudá-la.
William
Ele segura na maçaneta, com um sorriso tímido.
Dr.Peters: Maitê sabe que esqueceu coisas. Isso será tanto frustante quanto perturbador, especialmente em se tratando dos filhos. Ela poderá ter problemas com memória de curto prazo, também, e a vida diária vai pesar nisso. O senhor terá que ser forte, sr.Levy. Precisará ajudá-la a tentar se lembrar.
William: Acho que uma transa de lembrete não vai bastar nesse momento
Dr.Peters: Perdão?
William
O médico me olha como se eu estivesse ficando louco. Talvez ele esteja certo.
Balanço a cabeça para tentar compreender o que ele disse. Ajudá-la. Ajudá-la a encontrar as lembranças sem fim que compartilhamos. Fico de pé bem ereto e ajeito os ombros, em um ato físico de determinação que estou tentando reforçar com a mesma determinação em nível mental. Eu vou conseguir. Eu tenho que conseguir. Não há meio de eu permitir que nossa história desapareça como se nunca tivesse acontecido. De jeito nenhum. Farei qualquer coisa.
William: Farei o que for necessário. (Confirmo com a cabeça para o meu reflexo no espelho e vou em direção à  porta, passando pelo médico em silêncio, agora tomado pela determinação mental que não tinha um minuto antes. Só há uma forma de aborda o assunto. Com gentileza. Com paciência. Com sensibilidade. Docemente, muito docemente. Esvazio os pulmões, rindo de mim mesmo. Essa vai ser uma batalha como nenhuma outra.
Continua...    

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