15: Voltar pra "casa"

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Num outro dia, o clima ensolarado perdeu forças aos poucos, se tornando nublado muito rapidamente.

A tenda roxa e amarela do Arcana posta de pé no topo da colina tinha a lona da abertura agitada pelo vento fazendo barulho, enquanto as cores saturadas se tornavam um pouco mais apagadas, sem refletir a luz do sol escondido.

Ao redor, os brinquedos rangiam com o vento, a roda gigante de metal frio parecia ainda mais fria, abandonada sem ter que girar ou entreter alguém.

Do lado de dentro, Dálio e Jade estavam de um lado, enquanto Quimera estava do outro, ouvindo Narciso tocar e combinando a entrada com ele, ao passo que Emília apenas se mantinha sentada em três cadeiras empilhadas, balançando os pés e de braços cruzados para se proteger do frio repentino, com Pégaso deitado bem perto dela.

Não era o primeiro ensaio de Jade, das outras vezes tinha tocado com Narciso e assistido os números dos outros quatro, mas de certa forma ainda não participando de uma forma tão ativa, se sentindo um tanto quanto perdido.

— Essa é a quantidade de dinheiro que temos ainda a dividir. — Dálio se aproximou com um envelope, estendendo para o outro — Áster mandou te entregar a sexta parte.

— Ah... — Kader se lembrou do que os dois tinham falado antes, tinha se esquecido da teimosia de Áster — mas eu não preciso do dinheiro pra alguma coisa agora.

— E daí? É dinheiro, aceita logo, é seu pagamento. Dinheiro é o que mais importa, como pode falar que não precisa? Se não quiser gastar guarde pra depois. — O ruivo não aceitou uma resposta negativa, empurrando o envelope para ele e colocando as mãos nos quadris, respirando fundo para falar algo aparentemente importante — Pensei numa coisa e como eu sou seu veterano no circo, é muito justo que eu seja seu padrinho, é justo.

Jade não se sentia mais com tanta energia para ficar perto das pessoas, mas não tinha a opção de se afastar no momento, e Dálio estava sempre realmente fazendo com que ele se sentisse incluído.

— Como eu sou um ótimo padrinho, eu vou te ensinar tudo e agora vai ser pra valer. Começa pelo mais fácil, acerta a faca em algum lugar do alvo. — Ele encarou o jogo de facas que foi aberto diante dele, com vários tipos repetidos e alguns com apenas uma unidade; e depois para o alvo de madeira, ainda sem se mexer.

— Fala sério, Jadejade, o que você ia fazer sem mim? Dá aqui, eu vou mostrar como faz.

Dálio se preparou, mas não precisou hesitar muito antes de lançar a faca, acertando em cheio e com maestria, o fio de aço cortando o ar no percurso e fincando na madeira do outro lado do picadeiro.

Os olhos de Jade perseguiram a lâmina girando, mas de alguma maneira a associação daquele número de circo o levou para as vezes em que precisou operar. As vezes em que perdeu seus pacientes — Jade? Tá tudo bem? — Dálio devia ter chamado mais algumas vezes e falado outras coisas, mas Kader não respondeu, completamente alheio, sentindo os lábios formigando e as pontas dos dedos perdendo calor quando colocou a faca no lugar. Por que estava se lembrando disso justo agora?

Ele costumava cozinhar com frequência, mas segurar facas não o lembrava sobre essas imagens com tanta facilidade, ao menos ultimamente.

Encarou o alvo antes de piscar com força, esfregando o rosto e unindo as mãos, passando a estralar os dedos. Tinha diminuído essa mania, mas aparentemente ela não era fácil de se livrar, ainda que Santiago com seus conhecimentos o avisasse que não era bom e que podia causar problemas alguns anos depois, torcer e apertar os dedos assim. Precisava descer até a cidade e comprar mais pigmentos para pintar as mãos novamente e se distrair. Tinha trazido muitos da capital mas seu estoque tinha acabado, então teria que encontrar uma loja de produtos artísticos ou naturais por aí. Se distrair e evitar esses pensamentos intrusivos seria bom.

A Queda de ÁsterOnde histórias criam vida. Descubra agora