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- VOCÊS FUMARAM? - berrou Ray quando tirava o lixo do banheiro e encontrou maços. - MIRANDA, você deixou a Lani fumar!?

Nós três nos entreolhamos, enquanto jogávamos xadrez. Ela riu enquanto movia um bispo.

- Era feriado. Não podíamos fazer muita coisa. - respondeu ela.

Ray havia acabado de chegar, e era quase meia-noite, já que o ônibus se atrasou. Enquanto desfazia das malas, também cuidava do nosso quarto, com sua mania de limpeza de volta, era mais fácil, já havia ficado difícil para eu e Mira arrumarmos o que bagunçamos. Os lençóis foram arregaçados e as almofadas estavam todas espalhadas no chão, com algumas garrafas de vinho espalhadas. Ray juntou tudo e colocou em um canto qualquer, pegou os lençóis e jogou dentro da cesta para lavanderia e com a moça da limpeza, arrumou uma vassoura, um pano molhado, um seco e dois rodos.

- Coloquem isso no saco! Meu Deus, se os monitores verem essas garrafas, vamos para o olho da rua. - Ray apontou. - Parem de jogar e vão fazer algo de útil.

- Você voltou mais chata. - Mira resmungou. Então, dei xeque-mate, e o jogo acabou.

Os monitores também verificavam se os alunos estavam limpando seus quartos. Mesmo com várias faxineiras, ainda éramos obrigados a organizar tudo, e elas cuidavam das salas de aula, refeitório e entre outros. Caso não estivéssemos organizando os dormitórios corretamente, eles aplicavam uma advertência no nosso boletim, por isso, precisávamos ser mais asseadas. E enquanto organizávamos nosso quarto todas juntas, e ouvíamos Ray falar sobre o feriado dela, escutamos alguém dar três batidas na porta. Nossos olhares se encontraram, como se perguntássemos quem atenderia. Mira, então, olhou de relance pelo olho mágico e deu um sorrisinho.

- Melhor a Alanis abrir. - cantarolou ela, simplesmente.

Desconfiada, deixei de arrumar a cama e fui até lá. Me deparei com ninguém menos que Dante, e seu cheiro de perfume masculino provavelmente importado atravessou minhas narinas e arrepiei. Ele carregava uma caixinha preta na mão esquerda.

- Olá. - disse eu, tentando procurar palavras. - Chegou tarde, melhor voltar para seu dormitório... ah... - engoli em seco. - Como você está?

O sorriso dele sumiu. Meu Deus, o que foi que eu disse? O garoto literalmente veio até mim com uma alegria enorme e o mando embora.

- Melhor agora, que voltei para você. - disse ele, pegando minha mão e colocando a caixinha em cima dela. - Imaginei que gostasse de colar de pedras.

Abri a caixinha, curiosa, me deparei com uma gargantilha com uma pedra de Lolita aparentemente falsificada no centro. Abri um sorriso para ele, e me inclinei para abraçá-lo.

- Obrigada... Por se lembrar de mim. - Falei. Quando estava prestes a me afastar, ele me agarrou pela cintura e segurei em seu pescoço, e percebi que Dante não queria se afastar de mim.

Comecei a ficar nervosa, e ele riu.

- Estou sentindo seu coração bater mais forte.

- Estamos no corredor. Se alguém nos vir, vai dar ruim! - impliquei, com um sorriso no rosto.

Ele então passeou com o olhar por todo o meu rosto, e parou na boca.

- Você é linda demais. - sussurrou ele. - Me beija?

Não disse nada, apenas me inclinei e o beijei. Parei seis segundos depois.

- Senti falta disso. - Respondi, sorrindo. - Mas agora, é melhor voltarmos para os dormitórios. Amanhã a gente se vê na quadra de basquete.

Do jeito mais sensual possível, dei as costas e pisquei. Ele repuxou a boca um pouco para o canto e ajeitou os óculos que usava. Seu brinco de pressão de cobra balançou, e arrepiei um pouco, fechando a porta do quarto.

Então, vi Ray segurar um bloquinho e fazer um cálculo falso.

- Fiz as contas e não há mais dúvidas que ele está apaixonado por você. - diz ela, e Mira faz um barulho irritante.

- Isso não é verdade, estamos apenas ficando. - revirei os olhos, enquanto guardava o tabuleiro.

- Ficante só procura quando quer ficar. Ficante não dá presente. Ficante não liga no meio do feriado! - Mira listou.

- Alguns são diferentes. - respondi.

- Existem os que se apaixonam, Lani. E quem não se apaixonaria por você? Olha como está diferente desde o dia que chegou. - Mira me levou até o banheiro. - Lembra que sua mandíbula não era tão marcada e que seus ossos estavam muito á mostra? E que seu olhar era sempre de alguém rabugento e de deboche? Suas sobrancelhas eram sempre franzidas e agora você relaxou a boca. Você evoluiu.

Comecei a acreditar nela quando me lembrei do dia que cheguei, a um mês. Minha pele, que antes estava pálida, havia se bronzeado um pouco, talvez com o sol que tomei no rio. Meus olhos deixaram de ser semiabertos e minha boca parecia menos contraída. Mira estava certa, eu havia mesmo mudado. Mas não tive coragem de lembrá-la do motivo. Claro, o luto acabou comigo.

Ainda me lembro de sentar no chão do banheiro e chorar. Me lembro de socar as paredes, enquanto chorava, e gritava, socando ainda mais forte ao ver o sangue escorrendo pela cerâmica branca, e encarei os machucados cicatrizados nas mãos. Me lembro de quando o médico precisou dar a notícia, e minha mãe ficou imóvel nos instantes seguintes. Então, me lembrei do último jantar que tivemos juntos, antes de Lina e eu sairmos para a festa.

Mamãe preparara uma torta e todos comemos, felizes, uma família feliz. Lina usava um crooped de gola alta, e era a primeira vez que fazia isso. "Estou emagrecendo" disse ela. "Dois meses de academia e perdi mais quilos que o previsto. Daqui dois meses, acho que terei meus desejados cinquenta e quatro quilos" ela contava, com sua voz doce e seus sorrisos contagiantes. Lina se preocupava muito, muito mesmo com sua aparência. Se perguntassem para minha mãe e meu pai quais teriam sido as últimas palavras de Angelina, teriam sido "Vamos, Alanis. Tchau mãe, tchau pai, até mais tarde!"

Até mais tarde.

- Nunca havia reparado no quanto meus ombros são largos. - Eu disse, saindo do transe. Mira riu, e beijou meus ombros.

- Você é toda linda, mana. - Disse ela. - Agora vamos dormir.

Reacendendo-meHistórias para pegar e não largar. Descubra agora