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Eu estava feliz.

De verdade, daquela vez.

Conseguimos ficar até o último set. Os jogadores dos times adversários não pareciam nada perto de nós, e dava para escutar todas as vaias dos torcedores das outras escolas, de como "jogávamos roubado". Claro que era mentira, mas em algum momento, Ray levou sério e começou a analisar todos os nossos passos no jogo, mas Luma e eu a convencemos de que estava tudo bem. A diretora permitiu que saíssemos para comemorar a vitória, e tirei uma foto minha com minha medalha e enviei a foto para meu pai. Queria que ele mostrasse para minha avó, que eles se orgulhassem de mim.

Como apenas os jogadores tiveram a permissão de sair, Miranda e Mars tiveram que ficar no colégio, o que não impediu Mira de me maquiar, e ajudar Ray a escolher a roupa, já que sua ansiedade eminente não permitiu que ela usasse um vestidinho qualquer. Descobri calçar o mesmo número dela, e me emprestou seus sapatos pretos de salto de agulha, completamente desconfortáveis. Mas ficaram tão lindos em mim, que não me importei.

- Quase que ainda não consigo aceitar que vencemos. - disse Ray. - Eu estava perdendo as esperanças no terceiro set, até que o Ravi fez aquela cortada incrível, que salvou a gente.

Miranda soltou uma risada fina e breve, enquanto passava atentamente a chapinha no meu cabelo.

- Só não foi tão divertido quando a Lani saiu do segundo set ás pressas com o nariz sangrando de desidratação. - Ela recordou, e fechei os olhos, sorrindo vergonhosamente.

- O que não me mata, me deixa mais forte. - citei Nietzsche.

- É, mas ficar mais de quinze minutos sem beber um gole d'água não te deixa mais forte. -Ray concluiu, terminando de trançar seu cabelo em duas tranças boxeadoras. - Delineador?

Pedi para que Mira delineasse meus olhos, pois nunca fui muito boa nisso, e todas as vezes que tentava ser, acabava borrando ou parecendo uma palhaça. A pior parte é que Angelina estava no mesmo barco que eu, então sempre pedimos ajuda à Eleanor, que trabalhava de maquiadora no salão de beleza onde sua mãe também trabalhava. Ao me recordar disso, e olhando no espelho, percebia o quanto estava diferente. Quando Mira terminou a chapinha, prendi o cabelo em um coque, e como alguns fios caíram, já me senti um pouco melhor. Talvez Ray estivesse certa em algum dia, eu preferia cabelos rebeldes.

- Prontas? - Perguntou Suzi, ao bater na porta com uma força que assustou Miranda e quase machucou meus olhos.

- Entre! Estamos quase lá! - Disse Ray, também cutucando Miranda para acelerar comigo.

Ravi também dirigia, com carteira e tudo. Costumava dirigir o carro do avô, que o abandonou em sua garagem. Para nos levar até a uma boate, pegou o carro do Mars emprestado, e a diretora deu até meia-noite para estarmos de volta na escola. A importância de ter outra pessoa ali conosco para saber dirigir era crucial, por isso, Suzi disse mil vezes que não ia beber um gole de álcool, para que Ravi tivesse a oportunidade de encher a cara o quanto quisesse.

Era a minha primeira festa depois de meses, e realmente estava um pouco nervosa. Entrei de mãos dadas com Ravi, já que ele insistiu depois de ver minha tremedeira dentro do carro. Ray olhava para nós como se fossemos água e óleo juntos, e eu soltei uma risada.

- O que foi? - Pergunto.

- Primeiro: Isso é muito estranho. E segundo: Dante Leblanc. - Ela comentou, acenando para o pescoço, indicando sobre ele. Um frio percorreu minha espinha, mas não larguei a mão de Ravi.

- Nunca tive nada com ele, além de ficar. E nunca vou ter. Amanhã, ele já vai ter sumido da minha vida. - Declarei, e vi Ravi evitar sorrir. - Então, o que costumam fazer em festas?

Tudo que adolescentes campeões merecem: Dançamos na pista, conhecemos o DJ, brincamos de virar copos, realmente viramos muito, Ravi fumou seu primeiro cigarro eletrônico com um cara de dreads chamado de Caio, e fizeram amizade ali mesmo. Eu fiquei aproveitando o resto da festa com a Suzanna, que quis dançar na pista e conhecer as pessoas por amizade, em vez de ir atrás de alguém para ficar, como Iuri e Ray fizeram, se eles mesmos não já estão se pegando. Absorvida na dança e na música, quase não percebi quando Ravi apareceu e segurou meu ombro. Dei um salto sentindo seus dedos gelados.

- Experimenta! - Ele diz, apontando para a bebida esverdeada em suas mãos. - Não tem álcool!

Levei a boca até o canudo e bebi, sentindo um gosto forte de chá gelada, e uma bolinha que pensei ser alguma semente que veio até minha boca e me assustou quando a senti estourar. Abri um sorriso que fez ele rir também.

- Bubble Tea! Lá na minha cidade eu bebia muito disso. Quase não reconheci! - Tomei mais um gole, antes de ele entregar na minha mão e deixar que eu acabasse com o resto.

Mas ele ficou ali, olhando para mim.

- O quê? - O questiono, jogando o quadril para o lado.

- Você me deve um beijo. Ganharam a competição, e agora me deve um beijo. - Responde ele. - Permita-me que eu comece, senhorita Lani?

Olhei para o meu redor, procurando rostos conhecidos, mas nem Suzi estava mais do meu lado. Levei meu olhar diretamente para o dele, e senti seu cheiro por alguns segundos. O cheiro de perfume masculino consistido de tangerina, cipreste, bergamota... Vinham do frasco Portinari que vi no quarto dele, na primeira vez que fui até lá. Levantei os pés e depositei um beijo leve em seu pescoço, em cima das suas pintas, e sorri, enquanto ele me envolvia pela cintura em um abraço que me encaixava perfeitamente.

- Agora pode. - Abri mais um sorriso de orelha a orelha, caralho, de onde estavam vindo tantos motivos para sorrir?

Ravi revirou os olhos bruscamente e me agarrou, na intenção de estar próximo de mim suficientemente para não só beijar-me, mas também poder sentir meu corpo junto ao dele. Me movimentei muito, então, ao contrário dele, que ficou sentado no bar, eu estava quente. Minhas pernas se arrepiaram com sua mão segurando a minha cintura exposta. O blazer que eu usava por cima da mini regata preta escorregou dos meus ombros e eu o agarrei ainda mais. E, para ser sincera, onde eu esperava sentir gosto de cigarros, eu senti lábios açucarados e um gosto muito intenso de whisky.

E o melhor beijo da minha vida.

Reacendendo-meHistórias para pegar e não largar. Descubra agora