Capítulo 17

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Um ano, um mês, uma hora. Eu não sabia quanto tempo eu passei caindo, assim como também não pude distinguir as imagens que passaram ao meu redor como um borrão.

Outros mundos, outros lados de outras cidades, ou o próprio buraco em que Alice caiu seguindo o coelho. Poderia ser qualquer coisa.

Algo como uma praia saída de sonhos, a dona dos olhos verdes azulados e bochechas coradas. Então me preparei para o baque no mar. 

Não teve baque, eu não me molhei, atravessei o lençol de água e não foi o abismo gelado que encontrei, foi um céu escuro rasgado por uma lua vermelha em um bosque sombrio, um homem negro com marcas curiosas em toda a extensão das suas costas.

E quando me preparei para colidir contra o chão, a fumaça subiu.

Mas não era a fumaça provocada pela terra recém mexida, era a fumaça de um cigarro passado entre um homem de cicatrizes no rosto e uma menina de cicatrizes nos olhos.

E quando o ar se tornara de fato denso como o de Cheserie, percebi que ali era a linha de chegada, até que o chão virou o teto de uma casa, e o teto se desdobrou ao meu redor antes que eu atingisse a minha própria cama.

Meu peito subia e descia freneticamente até que eu fosse obrigada a ir para o banheiro. Nada saiu. Não tinha nada para vomitar.

A porra de uma batida na porra da porta quase me fez gritar de ódio. Mas ela se abriu enquanto batidas ainda soavam pela casa. Passos confiantes na escada, assovio despreocupado no corredor. Olhos verdes queimados no inferno.

Zayan não estava com as roupas pretas de sempre. Ainda eram pretas, mas a calça era de alfaiataria e a camisa era social, com quatro botões abertos, revelando a pele pálida do seu peito, um sobretudo, também preto o fazia quase desaparecer na noite. Os olhos como um farol. O sorriso de canto como a batida do carro.

Forcei um sorriso ao me levantar do chão do banheiro, ele se sentou na minha cama quando eu me encostei na soleira da porta.

-- Vai me chamar pra jantar? -- Lhe dei um sorriso preguiçoso ainda sentindo minhas entranhas reviradas, tentando processar, ou ignorar o que seja lá o que diabos aconteceu. Ele bufou, fazendo pouco caso.

-- É claro. -- Ele se levantou, ficando tão próximo que a visão da cama foi tampada. -- Que não. -- Uma risadinha irreverente.

-- De qualquer forma. -- Falei passando por ele, tentando manter distancia, algo ainda mais perigoso se alojava em sua postura que me fez temer outra volta por aí.

Dessa vez ocupando o lugar que ele estava na cama. -- Preto te cai bem. -- Talvez meu cérebro também tivesse sido revirado.

Ele levantou uma sobrancelha, cruzou os braços na altura do peito, e se encostou no batente da porta enquanto o fantasma de um sorriso perverso ainda brincava no canto da sua boca. O retrato perfeito da arrogância.

-- Amarelo não fica tão mal em você. -- Ele estreitou os olhos me analisando, tentei não me sentir envergonha, então optei por me sentir ofendida.

-- Na verdade, amarelo é a sua cor. -- Um brilho diferente adornou seus olhos enquanto falava, sumiu antes que eu pudesse nomear.

-- Aah, é a--

-- Sua cor preferida. Eu sei. -- Zayan se desencostou da porta, os passos eram curtos e lentos até chegarem perto o suficiente para seus joelhos tocarem os meus. -- Foi por isso que pintou o cabelo?

-- Eu não pintei o cabelo.

-- Sua raiz é escura.

-- Minhas sobrancelhas também.

-- Estranho. -- Ele passou alguns segundos estudando meus cabelos, até que ele voltou a se encostar no batente da porta, e inclinar a cabeça para o lado. -- Como fez aquilo? -- As palavras foram mais uma acusação do que uma pergunta, suas sobrancelhas levemente arqueadas, seu rosto extremamente cauteloso. 

Eu o imitei, pensando nas palavras corretas que não entregassem a pequena mentira que o havia contado sobre essa maldição e algo mais, não fazendo a menor ideia sobre o que ele falava.

-- Apenas fiz. -- Dei de ombros, pisquei os olhos e ele estava na minha frente de novo, a cautela dando lugar a uma mascara gelada, seus olhos verdes outrora brilhando como faróis agora estavam gelados, vítreos. 

Nenhum sorriso perverso, nenhum humor, nenhum temperamento, porque todas essas coisas eram humanas. E Zayan não.

A escuridão do quarto se tornara mais escura, se é que aquilo era possível, até a lua pareceu vacilar, e quando seus dedos tocaram meu pescoço em uma calma ameaçadora, eles estavam gelados.

-- Sobre o que mais você está mentindo? -- Sua voz era seda, mas estava congelada, tão fria que rasgou meu rosto. 

O mundo ficou em silencio e a única coisa audível era a minha respiração. Ele não apertou meu pescoço, mas deixou a mão ali como um aviso.

-- Nada. -- Tentei não desviar o olhar, tentei não piscar ou engolir em seco, tentei de tudo, até que o silencio venceu e seus olhos se suavizaram, como magica, porque era magica, seus dedos se tornaram calorosos novamente. Ele se tornou mais humano.

-- Que magia curiosa essa que você tem. -- Ele ronronou contra a minha pele, inclinando meu pescoço para trás, deixando rastros da sua boca no meu queixo até que meu sangue esquentasse. 

Até que ele se afastou rápido demais, tirou a mão de mim rápido demais. Um brilho curioso inundou seus olhos, e ele não fez esforço nenhum em o esconder dessa vez.

-- Realmente, é como dizem em Salem, -- Ele soltou um suspiro longo como nostalgia, limpando a mão no sobretudo. -- Bruxos podem ser habilidosamente perversos, mas bruxas... -- O sorriso de gato voltou. -- Bruxas podem ser atrozes. -- Balancei a cabeça confusa.

-- Não entendo. -- O sorriso se tornou cruelmente meigo. Aparentemente só ele conseguia fazer essa junção funcionar.

-- Você não sentiu isso? Seu corpo reagir ao externo? -- Ele estreitou os olhos, eu balancei a cabeça. 

-- Nunca desejou algo que logo em seguida aconteceu? Nunca sentiu seu coração inchando com a vontade de algo, e ela se manifestar? Aposto que sentiu, só não sabe interpretar ainda.

Seus lábios estavam mais vermelhos, como se ele sentisse fome de algo que não é apropriado para o corpo humano. O que será que ele come? Ele comeu meu donut, mas comida de verdade o sacia? Me contive de perguntar, com receio de que a resposta seja crianças ou algo tão escabroso quanto.

-- Em Salem se temiam os bruxos, e se respeitavam as bruxas, elas poderiam ser cruéis demais para serem temidas.

-- Isso não faz sentido. -- Cruzei as pernas na cama. -- Temer alguém torna aquela pessoa pior do que aquela que você respeita.

-- Minha, bruxinha. -- As palavras dele foram concisas demais para que parecessem apenas um apelido. --  Respeito é a única coisa que se pode dá a alguém tão... inflamável. Temerosidade se torna faísca.

-- O que você quis dizer sobre eu ter magia? -- Odiei a inocência com a qual as palavras saíram, odiei a imitação de compaixão que se formou no seu rosto, o olhar de um adulto para uma criança. De um deus para um mortal.

-- Não me viu ser queimado por você? -- Seus olhos se estreitaram mais uma vez, apenas para voltarem ao normal, e então se tornarem uma pedra coberta por musgo.

-- Não saia essa noite. -- Uma ordem. -- Não vá com aquele seu seja lá o que ele é para o Cazz Stop. Faça uma pipoca, assista um filme. Mas não coloque os pés na rua hoje.-- Aquilo não era uma sugestão. Era um comando. Eu bufei em resposta, me recusando em ser intimidada.

-- Você estava me bisbilhotando na cantina? -- Um sorriso malicioso e preguiçoso se formou na minha boca. -- Achei que a minha vidinha de merda não te despertava interesse.

Ele olhou para os próprios pés ao colocar a mão dentro do bolso do sobretudo e caminhar até a porta do quarto com um sorriso do qual eu não soube dizer o que significava.

-- Eu também sei mentir, Sabina. 

Aviso. Aquele sorriso era um aviso.

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