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"Corre, ele tá caído, tá caído pedindo ajuda, corre" e foi com essas palavras que o 4º árbitro me atingiu com uma lança no peito. Quando eu olhei e me deparei com o Gabriel deitado de bruços perto do gol adversário pedindo ajuda, meu chão caiu.

Enquanto todo mundo tentava me segurar, pedindo pra eu não ir e procuravam o Tannure como malucos, eu desviei de todos, todas as mãos que ali tentavam me segurar feito uma águia. Corri em direção dele junto dos auxiliares, Gabriel tava totalmente sem ar devido a pancada que ele tinha tomado.

Ali naquele momento eu não poderia ser a Julinha dele, a mulher dele e sim a médica. Em uma fração de segundos enquanto eu corria, fui tomando conta da situação e assim que cheguei ele tentava falar:

- Gabi, calma - segurei seu rosto e o virei pra cima - olha a costela - pedi pro auxiliar - olha pra mim, vou levantar seus braços acima da cabeça, puxa o ar pelo nariz Bi, isso, devagar... pelo nariz e tenta soltar pela boca, devagar. Isso Gabi - eu tentava o guiar e segurava meu choro ao mesmo tempo - conseguiu? - ele acenou com a cabeça que sim - onde dói? Tenta falar, devagar e com calma

- Minhas costas, perto da costela e minha canela - falou baixo e lento enquanto eu acariciei seu rosto e meus olhos marejaram.

- Faz alongamento nas pernas, ele vai ver sua costela. Tem que sair Gabi, vamos por outro - pedi tentando não deixar minhas lágrimas escorrerem e o ajudando a se levantar.

- Eu vou ficar, vou jogar até o fim - falou segurando no meu ombro e recuando pro fundo do campo.

- Bi, não força, você sabe que pode ser pior.

- Amor, obrigada por me salvar e por estar aqui. Eu preciso voltar Ju, eu preciso tentar - entrelaçou sutilmente nossos mindinhos enquanto o massagista fazia compressões na suas costas.

- Se você parar de respirar eu também paro Gabriel, não força, você é meu tudo e você sabe disso.

- Eu te amo - apertou minha mão e voltou a jogar.

Eu corri pra dentro do vestiário e desabei. Agora eu entendo o motivo de pessoas da equipe não poderem se relacionar umas com as outras. Eu chutei todas as garrafas de água que eu vi na minha frente pelo vestiário, não por raiva mas por medo, medo de acontecer algo com o Gabriel, medo de talvez perder ele, medo dele continuar se sentindo culpado, medo de uma possível derrota e mais pressão em cima dele — Eu preciso voltar pra que ele me sinta lá.

Sequei minhas lágrimas e retornei pro gramado, me sentei no último banco pra que ninguém pudesse se sentar ao meu lado e o Sampaolli veio na minha direção:

- Ei mocinha - ficou em pé na minha frente - vem cá, vem me ajudar aqui, vamos conversar - estendeu a mão pra que eu pudesse me levantar. Você ama muito ele né? 7 pessoas pra te segurar e ninguém te impediu, a gente faz uma bela dupla.

- Eu amo Sampa, amo muito e me doeu demais ver aquilo, pede pra eles dividirem mais as jogadas, olha la querendo ir sozinho ó - falei enquanto andávamos juntos igual a dois malucos na área técnica.

- rotaciona, divide as jogadas, livre aqui ó - ele gritou - Deu pra perceber, mas não se abala tá. Vai ficar tudo bem e eu sei que tem mais coisas além disso. Não deixa o medo te consumir mocinha, você é bem maior que ele - sorriu carinhosamente.

- Obrigada - o olhei com os olhinhos ternos, eu tô adorando esse velho - olha tá vendo o Maia ali, recua mais ele a gente vai tomar gol assim.

- Volta Maia, atrás - berrou.

- Eu vou sentar tá? Se não daqui a pouco a gente vai tomar cartão.

E ali eu fiquei isolada e pensativa o resto do jogo, pensando sobre tudo, sobre o medo, sobre minha insegurança estar gritando dentro de mim me causando pânico de eu não ser suficiente pra ajudar o Gabriel a atravessar por tudo isso, por estar ouvindo a torcida dizer coisas horrorosas a respeito dele o jogo todo. Despertei no lance do gol do Ribeiro que foi revisto pelo VAR:

Minha Cura | Gabriel Barbosa Histórias para pegar e não largar. Descubra agora