Você acredita em fantasmas?

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Sequer notara que havia anoitecido.

Realmente, o tempo dentro do estabelecimento passava de forma diferente. Inconstante, lenta e, sem dúvidas, sufocante.

Semelhante ao sondar de Seung. A fazendo afundar e soterrar seu corpo em um buraco imaginário.

Os pés se arrastaram inconscientemente para a direção de sua rua, prestes a seguir a direita. Sabia que não importava o lado que escolhesse, nenhum caminho ajudaria a solucionar os seus problemas.

No entanto, algo a esquerda roubou sua atenção. Um brilho metálico próximo a parede lateral da lanchonete.

Sabia que precisava voltar para casa. Seus pais deveriam ter voltado aquela altura ‒ se não, não demorariam para chegar.

E iriam se deparar com o verdadeiro nada. Sem ela, muito menos Seung Ho para recebê-los.

Daí ela se encrencaria como nunca, sendo proibida de sair de casa até que sua irmã levasse alta. E Cora tenha o mínimo de liberdade de volta quando os pais ficarem ocupados demais sendo papais ursos com Christa.

O pior de tudo era saber que escutaria sobre o quão influenciável ela era. Que Seung era a fonte de seus carmas.

Mal sabiam eles que ele não precisava puxar ela para o lado escuro da força. Seung, como um membro da família Yoon, era um exemplo perfeito do careta.

Se não fosse pela sua personalidade forte e as respostas na ponta da língua afiada, ele seria mais um playboyzinho ‒ além de fugir das responsabilidades como foge de um terno chique.

Um herdeiro dentre muitos.

Por ser mais novo, esse fardo não lhe cabia. Cora queria dizer o mesmo de Yun ‒ fardo tão grande que foi o golpe decisivo para Christa e Junni rompessem de vez.

Cora caminhou despretensiosamente na direção da luz. Lhe chamava como um sussurrar tentador.

‒ Olá, minha gracinha ‒ murmurou, deslizando os olhos famintos por toda extensão daquela Honda ESD calibrada e polida dentro da escura cor de petróleo ‒ Você sentiu saudades, hm? Diz que sim!

Choramingou, inclinando o corpo para frente ‒ resistindo a tentação de se abaixar e beijar ambos os pneus.

Lembrara da primeira vez que subiu nela. O couro quente se esfregando na sua calça jeans surrada e o cheiro de óleo alcançando suas narinas.

Sempre temeu e repudiou a ideia de subir em uma moto. Sequer tinha aprendido a andar de bicicleta, então nem sonhava com uma moto.

A regra era clara, não subia em algo de duas rodas que não ficasse parado, sozinho, no lugar. Mas Seung surgiu em sua vida para quebrar essa regra e todas as outras que criou para sua própria segurança.

A possibilidade tornou-se uma realidade assim que Seung levou as mãos macias aos seus olhos, cobrindo sua visão e a enchendo de pavor.

Pavor esse que aumentou suas expectativas.

Os dedos sempre cheiravam a algo próximo de baunilha, mas naquele dia especial estavam perfumados com óleo de motor e ferrugem.

Alisando a região, sentiu as linhas marcando a tintura. A moto seria intocável e pareceria recém saída da concessionária, se não fosse pelo pequeno detalhe.

O risco era uma lembrança encantadora da primeira vez que bateu de frente com Seung Ho. E, literalmente, na sua moto.

Estava tendo um dia agradável. Sua irmã tinha a acordado do jeitinho chato que amava e Junni estava lá, no fim, apenas sabe que saiu dirigindo a fera sob rodas de Yun.

Aquele sapato vermelho [✔] - ATUALIZADAOnde histórias criam vida. Descubra agora