Adão e Eva

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O portal se fechou atrás dele, mas Adão não percebeu, com os olhos fixos na casa à sua frente. Ele lambeu os lábios, nervoso. Fazia tanto tempo, ele tentou tanto falar com ela, mas agora estava com medo. Que ridículo! Do que ele deveria ter medo? Era sua maldita esposa que ele estava indo encontrar.

Adão caminhou até a porta, mas antes de alcançá-la, uma mão o agarrou pelos ombros e o puxou, virando seu corpo bruscamente para a figura atrás dele:

— Que porra...! — Ele se calou. O primeiro homem nunca tinha visto aquele demônio, mas algo nele era familiar. Os olhos tinham o mesmo formato dos seus. Se não fossem rosas e sim avelã... Ah. Era Caim.

O ex-anjo examinou o rosto demoníaco de seu filho mais velho, notando as diferenças, mas também o que permanecia igual. Eles ainda tinham a mesma altura, o formato dos olhos, como ele notou à primeira vista, também era o mesmo. As marcas recebidas de Deus ainda estavam lá. Se não soubesse, teria pensado que eram apenas marcas normais de qualquer espécie de demônio que se tornou.

— Pai? — chamou Caim, surpreso. — Lúcifer disse que você tinha morrido.

— Ha! Parece que o aço celestial não é tão infalível quanto esperado. — zombou Adão, tentando agir normalmente, mesmo com a voz rouca de emoção.

O filho olhou bem para o pai, realmente percebendo que diante dele não estava um anjo, e sim um demônio, e se perguntou o que exatamente tinha acontecido, mas não perguntou. Fazia muito tempo desde que falara com o pai e não tinha certeza de como fazê-lo agora, a surpresa ainda o fazia cambalear, mas não era necessário. Havia alguém esperando por esse encontro há milênios, alguém cuja notícia da morte dele tinha apagado uma frágil esperança.

— A mãe está no segundo andar. Lado esquerdo, segunda porta. — disse Caim.

Adão cerrou a mandíbula e assentiu, virando-se novamente para a casa e marchando para dentro antes de perder a coragem para isso. Ele seguiu as instruções de Caim até chegar diante de uma porta fechada. Com a mais breve hesitação, o primeiro homem abriu a porta.

Eva estava sentada no mesmo local em que Lúcifer a tinha encontrado antes, mas dessa vez ela apenas olhava para fora, encarando o campo com um ar triste. Adão analisou as mudanças em sua esposa. Ela parecia a mesma, apenas as cores da pele e os chifres eram diferentes, mas quando ela se virou para ver quem tinha aberto a porta, ele viu que os olhos também tinham mudado. Ao invés do avelã compartilhado com seu filho mais velho, seus olhos eram de um rosa semelhante às camélias que ela plantou após serem expulsos do Jardim. O mesmo tom que ela ainda compartilhou com Caim.

— Adão? — sussurrou a mãe da humanidade, como se sua voz pudesse quebrar esse frágil momento, revelando-o como uma ilusão. — Você está aqui?

— Sim. — disse ele, se engasgando antes de parar para limpar a garganta. — Faz tempo, não é?

Ela riu, com os olhos úmidos. Sua mão se estendeu e ele deu os passos necessários para segurar a delicada palma, impressionado por realmente poder fazer isso depois de dez mil anos. O primeiro homem se ajoelhou ao lado da esposa, os olhos percorrendo todo o rosto diante dele.

— Você é um demônio. — ela disse, dedos livres traçando o contorno do rosto que não via há tanto tempo. — A teoria de Charlie tem algum mérito então? — ela perguntou, sabendo das ideias da princesa que ajudou a criar, assim como sabia que Lúcifer, mesmo furioso, não mentiria sobre o destino de Adão, sobrando apenas uma opção.

— Aquela pivete miserável — resmungou Adão, ainda irritado com todo o fiasco do último extermínio.

Eva deu um tapa no braço dele, repreendendo o linguajar, mesmo que soubesse que era inútil. Ele sempre teve uma boca suja, e só piorou com a idade, ela sabe. Ainda assim, ela estava feliz. Sentiu falta dele, por mais que isso surpreendesse alguns. Eva foi a substituta, a versão obediente, e no início Adão não aceitou bem que Lilith foi deixada de lado, mas ele obedeceu e com o tempo eles se entenderam. Toda a altercação com o Fruto e Lúcifer tornou as coisas tensas de novo, mas eles encontraram sua harmonia.

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