QUARENTA E UM

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Quando a carruagem para em frente à câmara política do Conselho de Trolia, minha barriga se contorce, e uma vontade de vomitar me toma. Yur não percebe. Deve ter sido o peixe que comi ou talvez eu esteja com medo, de verdade.

Um dos funcionários de Ciro abre a porta da carruagem, e descemos. Ele nos olha dos pés à cabeça – talvez tentando ver se somos perigosos – antes de nos deixar entrar pelas portas da câmara.

Ciro nos encontra em frente à porta de entrada.

— Vai ser rápido. Eles vão fazer algumas perguntas. Vocês respondem e aí podem voltar para a carruagem e sair de Trolia. — Ele ergue um pequeno pedaço de papel para Yur, e eu lembro. Lembro de quando Orlean fazia isso comigo. — Leia depois.

Yur enfia o papel no bolso, Ciro abre a porta, e entramos.

A sala é apenas um escritório com algumas cadeiras dispostas uma ao lado da outra. Acho que a única diferença das salas de Versen é que ela é dividida por uma parede de material transparente.

— À prova de bala? — sussurro para Ciro.

— É de praxe. — Ele mexe as mãos indicando as cadeiras onde nos sentaríamos.

Eu e Yur nos sentamos e Ciro sai da sala.

O conselho de Trolia entra. Todos usam roupas pretas e vermelhas, com casacos cheios de pelos. Há duas mulheres no meio. E todos têm orelhas redondas como as minhas. Depois de ver o conselho de Versen, é até esquisito ver tantos assim.

Se eu tivesse vindo parar aqui, não teria achado logo de cara que havia algo de errado.

— Senhorita Alissa Rodrigues e senhor Yur Castor, sejam muito bem-vindos a Trolia — um dos membros do conselho fala. Sua voz escorrega de sua boca com preguiça, como se falasse isso quarenta vezes por dia e não aguentasse mais.

— Um pouco atrasado. Devia estar falando "voltem sempre", já que estamos saindo em breve — digo no mesmo tom que o dele.

Ele solta o ar pela boca, meio debochado. O homem parece um pouco com o pai de Ciro. Inclusive, acredito que tenha ascendência japonesa. Tirando uma mulher e um homem, a maioria das pessoas aqui parece ser japonesa.

— Ela gosta de falar — o homem responde, finalmente com alguma emoção no rosto. — Bom, meu nome é Igor Yamada. O conselho me colocou temporariamente como chefe devido ao ataque contra a família Kobayashi e à morte de Isaias. Não quero tomar seu tempo, mas, infelizmente, preciso ter certeza de que não incitaram nenhum dos acontecimentos de hoje.

— Posso assegurar que não fizemos nada — Yur responde, pondo a mão sobre o peito.

Igor olha para os outros ao seu lado.

— Iremos analisar isso, Sr. Castor. Agora, temos algumas perguntas — Igor diz. — Você, Alissa, é de Ziern?

Essa pergunta me pega desprevenida.

— Ahn... Sim, sou. — Minha boca fica seca.

— Como é lá?

Fecho minhas mãos na roupa sobre o colo. Eu não estudei isso. A única coisa que sei é que existem montanhas em Ziern e lagartas no deserto próximo de lá, então é isso que falo.

— E você sabe a história do seu povo? Sabe o que os versenianos fizeram com o povo de Ziern?

Eu engulo saliva e fico calada. Ciro não está aqui, e Yur... bem, acho que Yur não sabe que eu não sou realmente de lá.

— Vou contar uma pequena história para atiçar sua memória. Ziern era uma comunidade que cresceu com a magia rondando cada pingo de água que escorria das folhas de suas árvores. Ziern vivia e prosperava. Um garoto uma vez se perdeu no deserto. Era o filho de um dos chefes da comunidade, e ele sobreviveu comendo lagartas.

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