VINTE E DOIS

36 5 2
                                        

Ciro é totalmente diferente de como todos acharam que os trolianos eram. Ele é um choque cultural e pessoal para todos os Duvianos.

Na verdade, para quase todos. Alguns ainda estão desacreditados.

Enquanto eu servia os convidados do jantar ouvi alguns comentando sobre como Ciro devia estar escondendo seu lado manipulador, que devia os odiar e falar mal deles pelas costas e que os guarda-costas (era assim que chamavam os grandalhões que o acompanhavam) o protegeriam de um possível ataque que fosse planejar.

Era até cansativo, apesar de eu ainda considerar Ciro um filhinho de papai. Os pensamentos de Yur pareciam estar me contaminando como uma gripe.

Alguns elfos do jantar até achavam que toda a festividade iria tirar a atenção do local do ataque planejado pelos trolianos. Bom, tirar o foco e enganar o inimigo é realmente uma técnica de batalha, mas não acho que isso iria acontecer agora.

O que eu consigo enxergar é Ciro tomando do melhor vinho de Duvia e mordendo pedaços de frutas enquanto flerta com o olhar os mais diferentes seres que passam por ele, consigo até enxergar Yur fazendo a mesma coisa e isso não é nenhum sinal de ataque ou coisa ruim prester a acontecer.

Todos parecem bem entretidos e felizes.

Passo perto da mesa de Ciro o servindo na rotatividade (os cozinheiros ficavam indo e vindo em cada mesa e contornando o salão no processo) até que a música ao vivo para de uma vez.

O salão é tomado pelo silêncio, inclusive das conversas. Não é nenhuma surpresa que pensem que algo ruim aconteceu visto as conversas que ouvi, contudo, a verdade é que uma apresentação artística foi programada como parte da experiência de boas-vindas para Ciro.

Tambores começam a ressoar vindo dos quatro cantos do salão cada vez mais alto. Um cheiro sútil de magia chega em meu nariz. Ele é doce, caramelizado e floral. Parece o cheiro da magia de Aland.

E é dele.

A luzes do teto diminuem.

Os elfos do alto-escalão vão até o meio do salão formando um círculo, de costas um para o outro e de frente para a plateia.

Ciro coloca a mão no queixo escorando o braço na mesa e faz um sinal com o dedo para que os trolianos que vieram com ele se sentem para apreciar a cena.

Os tambores seguem um ritmo lento.

Aland, que está entre os elfos da apresentação, move as mãos em frente ao corpo, da esquerda para a direita, e uma linha azul brilhante brota da ponta de seus dedos e afunda no piso. O elfo ao lado dele faz a mesma coisa e sua linha de energia segue a de Aland. Logo todos os demais elfos a invocam.

A luz corre por debaixo dos azulejos como seres místicos nadando em gelo congelado. Uma das luzes para seu caminho bem embaixo de meus pés onde uma estrela de quatro pontas está desenhada junto de arabescos.

Enquanto estava servindo as bebidas mais cedo notei em diversos pontos do salão as estrelas adornando-o de forma belíssima. Elas não estavam lá quando decoramos o salão, porém nos ajustes finais da arrumação um grupo até encerou o piso deixando-o em perfeito estado.

E isso tinha feito toda a diferença.

Eu era, de certo modo, uma das sortudas de estar sobre os azulejos de estrelas vendo a apresentação de perto.

A estrela dele brilha tanto no desenho quanto nas bordas do quadrado e tive uma vontade incontrolável de tocá-lo. Minha mente grita que aquela pequena estrela no chão cintilante me transportaria para outro lugar, mas eu só estou me enganando.

O Portal para VersenHistórias para pegar e não largar. Descubra agora