Uma lembrança pode mudar tudo!
Após enfrentar a morte de frente, Alma Ferraz desperta de um sono profundo sem as memórias de um reino de fantasia. Durante a rotina do dia-a-dia, o ballet profissional deixa cada vez mais perto, John, um antigo amigo...
No domingo à noite, desci para colocar o lixo para fora. O vizinho também desceu, com aquele cabelo meio rebelde, fones nos ouvidos e roupas de ginástica. Acho que ele não me viu, saiu completamente entretido.
Eu não sabia como seria na escola no dia seguinte. Ainda não tínhamos nos esbarrado depois dos ataques no terraço. De costas para ele, deixei tudo dentro da lixeira e sacudi as mãos... e afinal ele tinha me visto. Não ia conseguir entrar sem falar com ele, até mesmo porque estava na cara que ele estava me esperando. Por que ele me deixava tão nervosa? Esfreguei as palmas das mãos na calça jeans para secar o suor repentino e voltei para a entrada do prédio.
— Oi. — cumprimentei com um sorriso amarelo.
— Oi. — os fones brincavam de um lado para o outro no meio dos dedos. — Tem um minuto?
Fiz que sim com a cabeça ainda na calçada. Ele não parecia irritado dessa vez.
— Eu... — mastigou as palavras dentro da boca antes de deixá-las sair. — Gostaria de me desculpar com você. Pela grosseria da outra noite. — declarou sério.
— Ah. Tudo bem. — ele tinha dito que eu não valia muita coisa, mas para ser honesta... fui eu que comecei e não tinha dito nada muito diferente para ele também. — É o que você pensa, não precisa pedir desculpas por isso. — empurrei o portão para trás.
— Mas isso não é o que eu penso. — a mão dele travou o objeto e eu não consegui abrir. — Pode olhar para mim, por favor? — eu continuava encarando as grades horizontais pintadas de branco porque era assustador encarar o verde e dourado do olhar dele. Só que eu não tive alternativa, então enfrentei.
— Alma, eu só disse aquilo porque estava chateado. Você é uma pessoa incrível, nunca deixe que ninguém lhe diga o contrário, nem mesmo o imbecil aqui. — disse isso com um riso de humor autodepreciativo e eu relaxei, rindo também. — Você é decidida e sempre luta pelo que quer. Escolheu tirar um tempo para si mesma e focar na sua carreira e é exatamente isso o que está fazendo. Está certa, é a sua vida, ninguém pode dizer como deve vivê-la. Fez a sua escolha com base naquilo que a faz feliz, nem todo mundo tem coragem de perseguir o que ama, você tem. Um sonho algumas vezes pode parecer algo muito distante, difícil de alcançar. Desistir se apresenta como uma saída alternativa mais fácil e muita gente não "chega lá" porque para de tentar. Você conseguiu. É uma bailarina fantástica e isso não foi feito só de talento, mas de muito trabalho duro, esforço e dedicação.
— Obrigada. — corei de leve, eram muitos elogios, mas fiquei feliz que ele pensasse essas coisas de mim.
— Além disso é uma ótima amiga, prestativa, pronta a estender uma mão quando vê alguém ao lado precisando. Quem foi que resolveu o probleminha da minha TV e impediu o meu apartamento de ser demolido?
Comecei a rir me lembrando do acontecimento. Tanto trabalho e frustração com o aparelho que apenas precisava ser ligado na corrente. A cabeça dele estava mesmo em outro mundo aquele dia.
— É assim que eu vejo você de verdade. E eu não tinha o direito de dizer aquelas coisas.
— Bom... na verdade... — fiz uma careta. Às vezes não pensamos duas vezes antes de ofender alguém, mas, pedir desculpas não é nada fácil, no entanto, deve ser feito se tivermos sido injustos. — Acho que também tenho que me desculpar, não foi muito justo da minha parte, ter dito aquelas coisas. Você estava me tirando do sério! Estava me irritando de propósito, não estava?
A resposta foi silenciosa, só ganhei um sorriso torto e maroto, com cara de culpado. A expressão dele dizia: pego no flagra! Era melhor que ele não ficasse rindo assim para mim muitas vezes, os olhos por si só já eram um problema bem grande, não precisava de mais um.
— Pois bem. — cruzei os braços, tentando inutilmente tirar aquele sorriso idiota da minha cara. — Não acho você insuportável e peço desculpas pelo que eu disse. Você até que consegue ser legalzinho de vez em quando, se fizer um esforço beeeeeem grande para isso. — impliquei, mas ele não ligou, estava gostando.
— Quanta generosidade da sua parte! — o rapaz entrou na brincadeira. — Acho que tem andado muito com a minha irmã.
— Ela te odeia! Só para constar.
— É recíproco! — fez uma cara de nojo e de desdém, igualzinha a que Elisa fazia em relação a ele!
Foi um momento legal, ali, com a sombra da noite e o frescor da brisa. Talvez ele não fosse ficar me pressionando afinal de contas. Talvez a gente conseguisse ser amigos.
— Vai correr agora? — fiquei preocupada. E se ele fosse assaltado? — Não está um pouco tarde?
— Eu costumava fazer isso de manhã, antes de começar o dia mas... não tenho dormido muito bem, ficar cansado costuma ajudar.
— A minha mãe também tem problemas para dormir de vez em quando. Ela costuma tomar um chá que ajuda. Quer que eu peça para ela fazer um pouco para você?
— Não, obrigado. O problema não é dormir, é onde eu entro quando fecho os olhos. Se eu tomar alguma coisa vou ficar preso dentro dos meus pesadelos.
— Ah. — reparei no tom escuro abaixo daqueles olhos lindos. Realmente, a cor daquelas olheiras sugeria noites muito mal dormidas, coitado. — Vou deixar você ir então. Não entre em becos escuros e não fique muito tempo fora. Pode ser perigo andar sozinho à noite.
— Não se preocupe. — deu um sorriso satisfeito. — Sei me cuidar.
— É, mesmo assim. — aqueles braços fortes não fariam muito estrago contra uma arma apontada para a cabeça. — Prevenção nunca é demais.
— Nesse caso vou esperar você entrar e trancar o portão. Prevenção nunca é demais!
Aff! Revirei os olhos, mas estava rindo. Fiz como ele queria e me despedi. Só aí o rapaz partiu com um sorriso no rosto e se perdeu na noite escura. Gael Ávila. Um jovem com olhos de narciso.
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Olá a todos, primeiro capítulo de hoje. Espero que tenham gostado.