48 - O cajado com uma estrela

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Ele deu o bote. O eremita se transfigurou num segundo! A cauda agarrando a cintura de John enquanto atacava Vânia. Era um lugar muito apertado para um tiroteio sem graves consequências. O barco balançava loucamente, o bicho foi atacado com violência na cabeça. Ele se desvencilhou das pessoas e pulou na água, submergindo rapidamente, carregando John para o fundo.

— John! — gritei desesperada. Aquela coisa iria matá-lo!

— Precisamos do guardião! — Selva gritou também. — Ele tem que sobreviver!

Vi pela ponta do olho o caçador caindo na água. Gael. Por que ele sempre tinha que ser o herói?! A superfície espelhada do lago não deixava ver abaixo o que estava acontecendo. Senti os olhos começarem a arder de desespero. Os segundos passavam — ou seriam horas? — e nada acontecia. Por favor, por favor, por favor! Onde eles estão? Onde eles estão?

O barco balançou de novo com ímpeto, alguma coisa bateu no fundo do casco. Um barulho do outro lado fez todo mundo correr para lá. O barco quase virou com o movimento brusco do peso se realocando. Ondulações na água indicavam a presença de alguém logo ali abaixo. Armas foram preparadas. O movimento aumentou. Miras foram apontadas. Bolhas estouraram. Dedos sobre gatilhos. Uma mancha escura de cabelos rompeu a superfície.

— John! — respirei com alívio, ele puxou violentamente o ar.

— Tirem ele da água! — Selva ordenou com urgência.

— Me dê a sua mão! — Natan o puxou para dentro.

A água ensanguentada escorreu pela sua camisa e manchou, em uma poça, o gelo azul. John desabou no chão com um corte horrível do ombro até o meio das costas.

— E o Gael? — perguntei com pânico berrando dentro da minha cabeça.

Não foi necessário uma resposta. A água voltou a se revolver e ele apontou à superfície. Felicidade me esmagava por dentro.

— Eu não... — com um puxão violento ele desapareceu outra vez.

O pavor me consumiu. Preciso ajudá-lo! Ele vai se afogar!

— Pare com isso! — alguém me segurava e gritava comigo. — Você não! Não podemos perdê-la!

— Ele está se afogando! — respondi na cara da pessoa e vi que era a ruiva traiçoeira que nos arrastara para aquela bagunça.

— Natan pegou ele! — essa era a voz de Elisa.

Voltei-me instantaneamente para a água. Os dois saindo do lago, Gael com alguma dificuldade. Ele tossia convulsivamente enquanto eu ajudava a puxá-lo para dentro.

— Ali! — Selva apontou. — Está fugindo!

Ouvi uma saraivada de tiros sendo engolidos pela superfície flácida da água enquanto me concentrava no rapaz encharcado, que se recompunha à minha frente.

— Estou bem. — ele respondeu antes que eu perguntasse.

Cheguei um pouquinho mais perto de entender o que ele deve ter sofrido quando desapareci no outro espectro.

— Não me deixe. — senti a água das roupas dele encharcando as minhas quando o abracei. Não consigo fazer isso sem ele. Não consigo se ele me deixar para trás.

— Tudo o que você quiser, carissimi. — respondeu com suavidade, afagando as minhas costas. — Sabe disso.

— Ele fugiu. — Elisa falou. — Mas deixou isso para trás. — mostrou.

No meio da agitação, tínhamos esquecido do cajado com a estrela. O objeto ficou jogado no chão de gelo.

— Agora é nosso. Faremos bom proveito dele. — o aprendiz afirmou.

— Como está o guardião? — Gael perguntou.

— Vai sobreviver. — Vânia esclareceu. Ela tinha profundos cortes e lacerações no lado esquerdo. Marcas do confronto anterior.

John estava com o ferimento já tratado, coberto por uma pasta de folhas com um cheiro amargo. Ele tentava esconder os próprios gemidos de dor.

— Tem certeza que isso está me curando ao invés de me matar? — perguntou à botânica com os olhos comprimidos numa careta. — Parece que está queimando a minha carne.

— Que bom. Significa que está funcionando. — ela respondeu preparando um pouco daquilo para aplicar em si mesma.

Menos mal que a estrela ficou pra trás, ufa!

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Menos mal que a estrela ficou pra trás, ufa!

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