Capítulo 23 - E tudo que eu te dei se foi

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Catarina encarava Afonso com uma expressão fechada após ele tê-la abordado. Tudo que menos queria era falar com ele, mas sabia que uma hora ou outra isso aconteceria e se fosse pra acontecer que acabasse logo.

- Conversar? - Ela perguntou tentando manter distância dele. - Se for a respeito de nossos reinos, estou aberta a discussões.

- Na verdade, eu queria falar com você sobre... bem... sobre tudo. - Ele disse, mas ela sabia exatamente o que era esse "tudo", que era algo que tentou evitar ao máximo.

- Afonso, eu não quero... - Ela dizia, mas ele a interrompeu aproximando-se dela.

- Por favor, Catarina, nós não podemos nos evitar para sempre. Muitas coisas aconteceram nos últimos meses e principalmente nos últimos dias. Nós precisamos conversar.

Ele disse e ela apenas assentiu calada. Os dois foram em silêncio rumo a biblioteca. Catarina entrou primeiro e logo em seguida Afonso, que fechou a porta atrás de si e respirou fundo.

- Pois bem, aqui estamos. Sobre o que deseja falar? - Catarina perguntou cruzando os braços na frente do peito, deixando seus seios um pouco mais evidenciados e Afonso até perdeu o raciocínio do que iria dizer. Aquela mulher era uma verdadeira tentação. A princesa notou seu olhar e sorriu disfarçadamente. "Isso, deseje, desgraçado, se corroa de arrependimento por não ter usufruido da chance de me conhecer como mulher", ela pensava.

- Eu... bem, eu não sei bem por onde começar. - Ele disse passando a mão pelos cabelos, estava nervoso, enquanto ela mantinha uma expressão neutra. - Foram tantas coisas que aconteceram nos últimos tempos.

- Que tal se começarmos pela época em que estávamos casados? - Ela perguntou e começou a se aproximar dele o olhando nos olhos. - Que tal se falarmos do quanto você me fez sofrer quando me rejeitava como se eu fosse uma criatura digna de desprezo? Ou sobre quando nem ao menos se preocupava em disfarçar seus encontros furtivos com sua rata ruiva? Quando começou a agir pelas minhas costas usando dos meus próprios sentimentos contra mim?

Ela o deixou sem escapatória com todas aquelas perguntas. Afonso jamais mensurou o quanto suas atitudes fizeram com que ela sofresse. O rei achava que apenas ele havia se sacrificado em prol de seu reino, mas nunca se colocou no lugar de Catarina. Ela fazia parecer que estava tudo bem, mas por dentro ela desmoronava.

- Catarina, aquele casamento não envolvia sentimentos. Você sempre soube que... - Ele disse e ela o interrompeu.

- Que era um acordo comercial, Afonso. Eu sei, aliás você jamais me deixava esquecer disso. - A princesa disse impaciente. - A coisa mais divertida nessa história era que você adorava dizer que a única coisa que podia me oferecer era respeito. Seu conceito de respeito é um tanto quanto questionável. - Ela disse com ironia.

- Hoje eu sei, Catarina, o quanto você saiu machucada do nosso casamento. Naquela época eu apenas pensei em meu lado, achava que apenas eu me sacrificava quando abri mão de Amália. - Ele falou e Catarina riu debochada.

- Abriu mão da rata ruiva? Abriu mão, Afonso? - Ela continuava rindo. - Abriu mão por quantos dias? Deixe-me pensar... talvez dois? Ou três? Porque pelo que me lembro o grande amor dos pombinhos não poderia esperar para sempre. - Catarina se aproximou de Afonso o olhando. - Vocês são o casal perfeito mesmo. O casal que se diz defensor do amor e da justiça, mas que não hesita em passar por cima nem mesmo do bem do próprio reino para continuar com o lindo conto de fadas.

Catarina tinha vontade de voar no pescoço de Afonso, de unhar sua cara inteira. Seu sangue fervia quando ele voltava a relembrar aquele maldito casamento do qual ela se arrependia mais do que a guerra que causou em Artena.

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