CAPÍTULO 14: O mito da caverna

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                                         DANIEL

     SOPHIA ERA A GAROTA MAIS estranha que eu já tinha visto em toda a minha vida. Estava pronto para pedir desculpas quando abri a porta e a encarei, segurando um gato preto nas mãos.

─ Por que você trouxe um gato? ─ perguntei, encarando a garota segurando o filhote no colo.

─ Bom, eu o encontrei abandonado na rua e ele estava tão triste sozinho lá que eu não resisti e o peguei. ─ respondeu, enquanto alisava o pelo do gato preto. ─ Posso entrar?

Eu me afasto e dou o espaço para ela entrar dentro da minha casa.

─ Hum... e você? O que você tem hoje? ─ a garota perguntou, sem me encarar.

─ Hã? ─ franzi as sobrancelhas.

─ Está falando comigo normalmente, até agora. ─ disse. ─ Aquele negócio que eu falei, de a gente deixar nossas diferenças de lado e se ajudar... você topou, então?

─ É, acho que sim. ─ cocei o cabelo, nervoso. ─ Desculpa por aquele dia. Você sabe... eu fui grosso. Não era a intenção. Eu só estava... confuso.

Confuso? Merda, eu não tinha nenhuma palavra melhor para descrever o que eu tinha sentido?

─ Ah, está tudo bem. ─ ela olhou nos meus olhos e sorriu. Desviei o olhar e me concentrei no gato em suas mãos.

─ E o que você vai fazer com isso daí?

─ Esse gatinho? ─ ela encarou o filhote. ─ Ah, eu acho que ele vai ficar com a gente até eu ir para casa. Tem algum problema?

─ Você por acaso sabe se eu não sou alérgico a gatos?

─ Você é? ─ arregalou os olhos.

─ Não. ─ disse, e quase consegui escutar ela suspirando de alívio. ─ Mas a minha irmã é.

─ Droga.

Não era mentira. Melissa sempre foi alérgica a pelos de gatos e cachorros. Isso me gerou uma rebeldia repentina quando eu tinha dez anos e implorei a minha mãe por um labrador. Foi frustrante. No final, tudo oque eu ganhei foi um papagaio enjoado que só sabia ficar repetindo "daniel", "melão" e "brilhante" - não me pergunte como ele aprendeu essas coisas.

─ Não tem nenhum lugar que a gente possa ficar e que não afete a sua irmã? ─ perguntou. ─ Sei lá, no seu quarto.

─ No meu quarto? ─ engoli seco, enfiando as mãos no bolso da bermuda.

Ela me encara e concorda com a cabeça. Parece não ter notado o meu desconforto.

─ Tá, tudo bem. No meu quarto. ─ assenti e a chamei com a cabeça.

Nenhuma garota além da minha irmã e minha mãe entrou no meu quarto antes. Exceto por Julie - a menina que eu era afim quando tinha treze anos e que tirei o meu BV. Foi terrível, eu me mijei nas calças.

─ Sabe... acho que a gente tem que dar um nome para esse gatinho. ─ Sophia disse, enquanto entrávamos no meu quarto - que sempre estava uma bagunça e por incrível que pareça, nesse dia não estava.

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