Estamos há mais de duas horas sentados em uma mesa, no lado externo do bar, jogando conversa fora enquanto devoramos algumas barcas de comida japonesa.
A conversa passeou por diversos temas, mas os holofotes estão sempre sobre os irmãos Pedro e Paulo.
Suas histórias de vida tão contrastantes, os caminhos extremo-opostos e ainda assim, eles são idênticos. E eu não falo apenas na aparência física, eles são idênticos no gestual, na maneira de sorrir, sempre com os olhos apertados e em tantos outros pequenos detalhes que assim, vendo-os lado a lado, é possível identificar.
Paulo, embora mais retraído, dispõe da mesma simpatia de Pedro e, mesmo enquanto contava sobre os perrengues de ser ajudante de pedreiro em dias chuvosos ou de quantos desaforos ouviu nos meses em que trabalhou com telemarketing, não o fazia com vitimismo nem drama, pelo contrário, em todas as suas narrativas existe uma boa pitada de humor.
— Fico olhando para vocês comendo com o hashi e me envergonho por nunca ter me interessado em aprender a manusear esses pauzinhos — Paulo reclama enquanto pega um hot roll com as mãos.
— Eu aprendi porque fui obrigado... Quando comida japonesa virou moda, eu tive que contratar um sushiman aqui para o bar e foi com ele que eu aprendi a comer com o hashi — Pedro relata entre um gole e outro de limonada rosa.
— Eu aprendi com a Luíza há muitos anos...Lembro como se fosse ontem quando ela voltou da viagem ao Japão, e me contou que lá se comia com pauzinhos — relembro enquanto empurro seus ombros com os meus.
— Que legal, então você já foi pro Japão? — Paulo pergunta para a minha amiga.
Ela assente movendo a cabeça.
— Algumas vezes. Meu pai tem clientes lá, então... — Ela sorri para ele.
— A minha linda amiga aqui, é muito viajada...Ela conhece um bocado de países — comento.
Luíza termina de mastigar e limpa a boca com um guardanapo.
— Eu conheço e confesso que adoro viajar, mas posso garantir que aqui no Brasil existem lugares incríveis e que não perdem em nada para os gringos.
— Bom, eu não posso nem opinar nesse assunto, afinal, as únicas viagens que fiz foram para a praia de Santos, dois anos atrás e agora, para cá, então...
Assim que Paulo termina sua frase, noto Luíza ruborizar enquanto exibe um sorriso sem graça no rosto. Pedro e eu nos entreolhamos e começo a me arrepender por ter entrado nesse assunto sobre viagens.
—Você é muito jovem, tenho certeza que vai conhecer muitos lugares, aqui e fora do país. — Ela parece contornar a situação.
Paulo toma um gole do seu chope com os olhos fixos nos de Luíza.
— Quem sabe não fazemos uma viagem juntos...? — Sorri de um jeito despretensioso. — De repente, vamos os quatro, não é?
— Claro! — intervenho, sem muito saber se devo ou não me meter. — Uma viagem, nós quatro, vai ser incrível.
— Eu também acho, mas só depois da nossa lua-de-mel...— Pedro puxa meu queixo e beija meus lábios rapidamente.
— Lua-de-mel? Ficou maluco? — Cruzo os meus braços e lanço a ele um olhar reprobatório. — Eu mal comecei a trabalhar no hospital, portanto, nem tenho como pedir férias.
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Era para ser assim
RomancePedro Motta Assunção é um homem que teve uma infância difícil, marcada por traumas e rejeições. Quando acredita ter encontrado a felicidade, uma tragédia marca sua vida e o coloca dentro de um grande desafio: criar sua filha recém-nascida, sozinho...
