Eu achava que nada doeria tanto quanto a morte da Fernanda, então a vida vem, algoz, cruel, impiedosa, e me mostra que ficar separado da minha filha, da minha pequena Lorena, podia sim, doer de maneira profunda... Até que como um anjo enviado dos céus, Mariana aparece para me curar, para dar-me um alento e quando eu começo a pensar que posso voltar a ser feliz, que terei minha filha de volta, sou apresentado a algo que eu sequer podia imaginar existir.
A dor, outra vez ela, só que agora, não é física, nem mesmo se arrancassem meu coração, nem mesmo assim, doeria tanto. Não posso dizer que esse sentimento torturante vem da alma, porque ela não pertence mais a mim.
Já praguejei tanto a Deus, proclamando frases e mais frases de heresia, duvidei de sua existência e literalmente perdi a fé. Saber que a Mariana está passando por uma cirurgia tão séria e que as chances de sobreviver são pequenas, acabou por fazer meu mundo desabar, sinto-me vazio e para mim nada mais faz sentido.
— Por que? Por que isso tinha que acontecer? — Levanto-me da poltrona e paro de frente para a janela. O sol começa a se pôr e o céu está colorido em tons de laranja e amarelo.
Parece uma pintura linda e isso me faz sentir pior, porque tudo em mim é cinza, sem graça, sem cor.
— Pedro, eu sei que é difícil, mas sua revolta em nada vai ajudá-lo. — Paulo tenta, sem sucesso, trazer-me de volta do mundo de trevas em que eu estou enfurnado.
— Fala porque não é sua mulher! — vocifero, sentindo os meus olhos queimarem enquanto eu volto a chorar. — Primeiro a Fernanda, agora a Mariana...Eu não vou suportar se algo de pior acontecer à ela.
— Não fala isso, Pedro! — Paulo segura-me pelos ombros e chacoalha-me, como se isso pudesse organizar a bagunça dentro da minha cabeça.
Olho para ele, meu irmão... Cansado de lutar contra a minha dor, abraço-me ao seu copo e choro, choro com tanta intensidade, que por alguns momentos, o ar não encontra o caminho dos meus pulmões.
— Cara, precisa estar bem, ou melhor, precisa estar em pé, forte...Por ela e também por sua filha. — Ele segura meu rosto dentro de suas mãos grandes e fixa seus olhos verdes nos meus.
— Paulo... E se... Você ouviu o que o médico disse... — externo, pela milésima vez, os fantasmas que não me abandonam mais.
Luiza, que até então, apenas observava tudo, vira-se de costas e pelos movimentos convulsivos do seu corpo, sei que ela chora também.
Afasto-me de Paulo e vou até ela, paro ao seu lado e toco seu ombro. Ela funga antes de me encarar e quando o faz, volta a chorar com toda força.
— Eu queria ser forte, queria estar otimista, mas é a minha melhor amiga, a irmã de coração que a vida me deu que está lá dentro, sendo operada... — murmura entre soluços.
Não consigo dizer nada, apenas puxo-a para um abraço e juntos deixamos transbordar nossas emoções. Ainda estamos unidos quando ouvimos o som da porta sendo aberta, olhamos juntos para a mesma direção.
São os pais da Mariana que acabam de chegar, até o momento eles estavam em outra sala, uma reservada a familiares e é a primeira vez que vamos ficar frente a frente, afinal, eu só os conheço por fotografias.
Luíza caminha na direção deles e Paulo vem para mais perto de mim.
— Dona Márcia, seu Osvaldo...Têm alguma nova informação sobre a Mariana? — pergunta ela, antes mesmo de chegar até eles.
Acompanho tudo com angustia, mas prefiro me manter longe, acredito que ninguém precisa de mais stress.
— Minha querida...Não soubemos de mais nada... — a mulher responde, antes de se afundar nos braços de Luíza, tal qual uma criança que precisa de colo. — Estou me sentindo tão culpada, minha filha me ligou minutos antes de sofrer esse acidente e eu não atendi... —Termina a frase aos prantos.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Era para ser assim
RomancePedro Motta Assunção é um homem que teve uma infância difícil, marcada por traumas e rejeições. Quando acredita ter encontrado a felicidade, uma tragédia marca sua vida e o coloca dentro de um grande desafio: criar sua filha recém-nascida, sozinho...
