Por mais que eu estivesse preparado para ouvir coisas ruins sobre a Silvia, o que os investigadores Moura e Arruda me relatam em pouco mais de quarenta e cinco minutos de conversa, acaba por me deixar nauseado.
— Não consigo saber em que momento ela se tornou esse monstro... — lamento com as mãos na cabeça.
— Psicopatia não é algo que se adquire, mas sim, que se carrega no DNA — Arruda sentencia, ele está um pouco mais desarmado comigo.
Cerro os punhos, estou irado, além disso, me sinto um tolo por não ter percebido isso antes.
— Minha vontade é de confrontá-la, dizer para ela que eu sei de tudo, mas tenho medo de perder a cabeça... — confesso.
Moura lança-me um olhar reprobatório.
— Se fizer isso, as chances de ela desaparecer sem que seja punida, são muito grandes. — Ele ergue as sobrancelhas para chamar minha atenção. — Além disso, tem o comparsa dela, precisamos armar um plano muito bem pensado e organizado, para que ele não consiga fugir novamente...
— Posso ver a fotografia dele outra vez? — peço, já com a mão estendida.
Arruda enfia a mão no bolso da sua camisa e entrega o pedaço de papel que tem estampado a imagem de um homem que deve contar mais de cinco décadas , mesmo tendo suas expressões marcadas por vincos e rugas, tenho certeza de que o conheço.
Fixo meus olhos em seu olhar e, ainda que através de um retrato, posso sentir a frieza vinda dele, além disso, o modo como sorri me causa arrepios, os mesmo que eu sentia muitos anos atrás.
Engulo em seco e devolvo a fotografia para o investigador.
— Não há dúvidas, esse é o Laércio do orfanato.
Arruda segura o retrato e bate no papel com o dedo indicador.
— É como minha avó sempre dizia, colocaram a raposa no poleiro das galinhas.
— É muito comum que pedófilos escolham esse tipo de lugar para trabalhar... — Moura se mostra resignado. — Escolas, orfanatos, centros esportivos...Eles gostam de ficar cercados de crianças, ganham sua confiança, até mesmo a dos familiares e depois, quando veem oportunidade, colocam em prática seus desejos repulsivos.
— Acham que ele pode ter...Bem, que ele pode ter abusado da Silvia naquela época?
— Eu não acho! — Moura que está em pé, puxa uma cadeira e senta-se de frente para mim. — Tenho certeza de que sim.
Aperto a ponte do nariz, isso não parece fazer sentido.
— Esse é o tipo de coisa que traumatiza uma criança, então, como ela pode ter se unido a ele? Como, depois de adulta, ela o mantém por perto?
Moura inspira lentamente e depois solta a respiração da mesma forma.
— Essas pessoas são capazes de manipular, de trabalhar tão bem a cabecinha de suas vítimas que conseguem fazer com que elas os admirem, que se tornem dependentes, e pasme, que os veja como porto-seguros — ele me explica.
— Eu já nem sei mais o que pensar de tudo isso, juro, me sinto massacrado, é como se um caminhão tivesse passado por cima de mim. — Tento expor como me sinto.
Moura estala os lábios, se levanta e caminha até Arruda.
— Para cortarmos definitivamente o mal pela raiz, vamos precisar da sua colaboração, portanto, não faça nada por conta própria. — Sou alertado por Arruda.
— Podem deixar, vou me segurar e esperar por suas instruções — digo, já em pé. — E mais uma vez eu peço desculpas por termos esse encontro tão tarde, mas quando soube que a Silvia foi até a casa dos pais da Mariana e que os envenenou com um monte de mentiras, acabei surtando, cheguei a ir até onde ela mora, mas o bom senso me fez desistir.
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Era para ser assim
RomancePedro Motta Assunção é um homem que teve uma infância difícil, marcada por traumas e rejeições. Quando acredita ter encontrado a felicidade, uma tragédia marca sua vida e o coloca dentro de um grande desafio: criar sua filha recém-nascida, sozinho...
