Pedro
Saber que algumas horas me separam da minha filha, faz com que meu sono desapareça. Inquieto, mexo-me de mais na cama e é claro que acabo acordando a Mariana. Ela parece me entender e eu nem preciso dizer para ela o que me aflige.
— Quer que eu desça e prepare um chá para você? — ela pergunta com a voz arrastada.
Inspiro profundamente e me sento.
— Imagine! — Acaricio seu rosto. — Agora durma, eu vou ficar bem.
Mariana junta as sobrancelhas e também senta-se na cama.
— A ansiedade é algo muito prejudicial para saúde e, quer saber? Agora quem perdeu o sono fui eu.
— Meu amor, me desculpe por isso — lamento.
— Não seja bobo, eu chamo isso de parceria e, se vamos ficar acordados, o que acha de fazermos algo mais produtivo? — pergunta com uma expressão séria.
— Hummm... Pode ser mais específica? — questiono-a sem entender sua postura.
Mariana joga levemente a cabeça para seu lado esquerdo e mantém os olhos nos meus.
— O que acha de me ajudar a desfazer essas malas e arrumar o guarda-roupas? Eu juro que vou te amar ainda mais se fizer isso por mim. — Junta as mãos como se fizesse uma prece.
— Arrumar um guarda-roupas a esta altura da madrugada? — Seguro meu queixo pronto para deliberar enquanto ela faz um biquinho. — Eu a ajudaria de qualquer forma, mas com esse incentivo de que vai me amar ainda mais, fico completamente empolgado.
Ela se ajoelha e depois se ajeita em meu colo, nossos rostos se aproximam enquanto dividimos o mesmo ar.
— Acho que posso ter mentido sobre isso... — Ela passa os braços em torno do meu pescoço.
— Ah, é? — Estreito meus olhos, completamente rendido por ela.
— Não tem como eu te amar ainda mais, uma vez que já estou fazendo isso de forma máxima.
Gostaria de poder descrever como suas palavras me impactaram, mas não, nenhuma explicação conseguiria descrever o quanto fui tocado. Ainda, sem conseguir responder nada para ela, apenas a puxo para um beijo, orando internamente para que ele possa refletir o tamanho do meu sentimento por Mariana.
****
Passa das seis horas da manhã quando penduramos os últimos jalecos no cabide, depois disso, tomamos um banho juntos, nos amamos calmamente e decidimos que tomaríamos nosso café da manhã em alguma padaria que ficasse no caminho da casa dos pais da Fernanda.
Lembrei-me de um posto de combustíveis que possuía uma loja de conveniência muito completa, cheguei a ir até lá algumas poucas vezes quando voltava de viagens com a minha esposa. Sei que aquele lugar pode me trazer lembranças, mesmo assim não hesito em seguir até lá.
No fundo, ainda que não planejado, eu quero saber como me sinto estando com outra mulher, em um lugar que foge da minha rotina e que fez parte das memórias bonitas que eu guardo da Fernanda.
Corre tudo bem, não há nenhum momento de angustia, muito menos de tristeza, ao contrário, eu conto à Mariana sobre isso e ela me entende.
— Estranho seria se tentasse fugir das recordações do que viveram...Vocês se amavam, tiveram uma história bonita, que foi interrompida de maneira brusca, mas que deixou um fruto maravilhoso... — discursa ela, e eu fico admirado com sua perspectiva tão madura.
— Nem fale, a Lorena foi mesmo o símbolo mais valioso da nossa história.
— E por falar nela, a Sabrina está me enviando mensagens... — Mariana segura seu telefone e coloca os olhos na tela. — Ela está avisando que já podemos ir.
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Era para ser assim
RomancePedro Motta Assunção é um homem que teve uma infância difícil, marcada por traumas e rejeições. Quando acredita ter encontrado a felicidade, uma tragédia marca sua vida e o coloca dentro de um grande desafio: criar sua filha recém-nascida, sozinho...
