Capítulo 25

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Acordei ouvindo os sussurros de duas pessoas, que não conseguia distinguir muito bem. Me afastei da parede, onde estava apoiada, numa tentativa de melhorar meu torcicolo. Ao abrir os olhos, percebi que se tratavam de Esquilo e Lancelot. 

Não consegui segurar o sorriso ao ver a cena, e até arrisco dizer que meus olhos marejaram de alívio e felicidade. Cheguei até a me beliscar discretamente, para aceitar que aquilo não era um sonho. Os Deuses haviam sido misericordiosos o suficiente e nos deram mais tempo juntos.

Fiquei observando a conversa em silêncio, para não atrapalhar. Depois de reafirmar diversas vezes que estava bem, Lancelot sugeriu que Esquilo fosse treinar suas habilidades. O menino saiu do quarto e eu finalmente me aproximei dele. Sentei na cama, e ele se virou na minha direção, com um sorriso um pouco tímido. Seu olhar nunca esteve tão indecifrável como nesse dia, e a única certeza que eu tinha era que eles eram como um lar para mim. Mesmo não dizendo nada, parecia que inúmeros sentimentos fluíam entre nós. Queria dizer muitas coisas, tudo o que havia sentido, mas nem sabia por onde começar. Então, apenas nos abraçamos e ficamos em silêncio, por algum tempo.

- De verdade, você está se sentido bem? - perguntei.

- Melhor do que nunca. E você? Ainda sente dor?

- Não... só um pouco de falta de ar às vezes, mas deve ser normal.

Ele sorriu e voltou a beber do cálice que estava em uma pequena mesa ao seu lado. Tomei coragem, e perguntei o que estava me afligindo tanto.

- Fui eu que fiz isso com você? Eu drenei sua energia?

- Não, não... - ele disse, segurando minhas mãos. - Fui eu. Você não tinha energia suficiente para se curar, então eu apenas cedi um pouco da minha.

- Foi arriscado. Você poderia ter morrido fazendo aquilo.

- Eu tinha que tentar alguma coisa. Eu sabia que isso poderia acontecer, mas não podia esperar sequer mais um segundo. Mesmo que acontecesse, valeria a pena.

- Obrigada...

Levei minha mão até o seu rosto, e me inclinei em sua direção. Ele levou sua mão até as minhas costas, me aproximando ainda mais do seu corpo. Nossos corpos se tocaram, e nossos lábios se uniram em um beijo. Minhas mãos percorriam as curvas perfeitas do seu corpo, até nossos lábios se separarem . Ele simplesmente havia revelado que morreria por mim, e ao mesmo tempo que era desesperador, por eu não conseguir mais imaginar uma vida sem ele, era algo extremamente doce. Só desejava encontrar alguma forma de retribuir a sua vulnerabilidade comigo.

- Eu lembro de quando você dizia que não se achava bom o suficiente para mim, mas somos perfeitos juntos. Você é perfeito para mim. Não me assuste desse jeito novamente. - disse.

- Você sabe que não posso te prometer isso... mas eu juro não tomar mais riscos do que o necessário.

- É um bom começo.

*

Fomos recebidos no castelo com honras e um banquete. As perguntas eram muitas, e duplicaram após descobrirem sobre o meu ferimento. Muitas pessoas almejavam uma líder que fosse tão inviolável quanto uma ideia, forte o suficiente para guiá-los até o fim. Nesse contexto, uma experiência de quase morte trazia uma preocupação excessiva por parte deles.

Eu e Lancelot subimos para uma das varandas, para fugirmos de tantos questionamentos. Além disso, o céu e a lua estavam lindos demais para não serem apreciados naquela noite.

- O próximo ataque será contra Padre Carden e os guerreiros da Trindade... você vai querer tomar parte nele? - perguntei.

- Quero arrancar a cabeça de Padre Carden com as minhas próprias mãos, se você permitir.

- Te dou permissão para fazer o que quiser com o destino dele. Tenho certeza que vai tomar uma boa decisão.

- E Iris? O que você vai fazer com ela?

- No início, o que eu posso fazer é conversar com ela. É perversa demais para ficar solta, mas ainda é só uma criança. Ela ganhará liberdade aos poucos, conforme ganhar confiança. É meu plano, por enquanto.

Ele assentiu, e voltou seu olhar ao horizonte.

- No que está pensando? - perguntei, percebendo um pequeno sorriso se formando em seus lábios.

- Eu tenho uma proposta para você. - respondeu, voltando seu olhar para mim.

- Qual?

- Case comigo.

Hurricane | NimulotOnde histórias criam vida. Descubra agora