A água inundava meu nariz, meus pulmões, e dificultava a minha visão. Tentei lutar, de princípio. Tentei emergir das águas, nadar, me debater, mas algo parecia me puxar para o fundo do lago. Meu corpo se tornava pesado, e meus movimentos incertos. Pensei em quantas pessoas estariam em perigo e eu não poderia salvar. Pensei no meu pai que estava ferido, pensei em Arthur, o meu grande amor, e em Esquilo, que poderia estar em perigo. A ansiedade tomava conta do meu ser nos meus últimos segundos de vida — ou da vida que eu conhecia até então. Desisti, e simplesmente deixei as águas tomarem conta do meu ser. A última coisa que eu senti foi o meu corpo afundando na água sangrenta.
Mas eu ainda não havia cumprido meu propósito. Subitamente, abri os meus olhos. Eu conseguia enxergar. Eu conseguia respirar, mas eu ainda estava debaixo d'água. Como isso era possível? Na minha frente apareceu uma sombra escura com aspecto humano, que me disse algumas palavras que eu não assimilei bem. O pouco que eu consegui entender era:
— Você tem o poder das águas agora. O nome dessa espada é Excalibur, e você é sua guardiã. Não a deixe cair em mãos erradas, e cumpra a sua missão. Nós te designamos para isso.
A voz distorcida, somada com o meu espanto, não me ajudou a assimilar nada. Mas eu percebia que a espada não me puxava mais para baixo, e sim para cima. Me esforçando, consegui nadar até um pedaço de terra. Respirei fundo, e notei que ainda tinha duas flechas no meu ombro. Tentei não gritar de dor enquanto as tirava. Sentei e olhei para a ponte, procurando por algum sinal de Íris, Morgana ou Merlin: mas nenhum dos três estava lá. Eu não podia voltar em direção ao acampamento dos Paladinos, então segui em frente, esperando que isso não fosse um sonho (ou minha vida pós-morte).
Tentei me comunicar com Morgana e Merlin. Eles agora tinham poderes, então talvez pudessem me ouvir. Depois de tentar muito, percebi que não seria possível. Esperando obter um pouco de ajuda, chamei os Ocultos. Finquei minhas unhas no chão, abaixei a cabeça e imaginei tudo o que eu queria falar. Não sei quanto tempo passou, mas fui interrompida por alguma voz bem familiar.
- Nimue? Você está bem? Como você submergiu? Já fazem dois dias e você ainda está molhada!
Era a voz de Morgana. Levantei-me e dei um abraço nela.
- Eu não sei. - respondi - Como você me encontrou?
- Eu ouvi o seu chamado. Vamos, precisamos sair daqui. Não é seguro.
Ela colocou a mão nas minhas costas e corremos por uma floresta nas proximidades, até encontrarmos um cavalo. Depois disso, cavalgamos até um porto, onde estava um enorme navio.
- É o navio da Lança Vermelha. - Morgana disse, como se estivesse fascinada.
Na frente de entrada encontrei uma figura familiar. Meu coração acelerou, me enchi de alegria e corri até Arthur. Nos abraçamos e em seguida nos beijamos, sem pararmos de sorrir.
- Morgana disse que você estava morta. Como você conseguiu chegar até aqui? O que aconteceu?
- É história pra outra hora. Mas me conte, os barcos foram suficientes? Como vocês vieram parar nesse navio?
Seu sorriso se desfez bem nessa hora. Comecei a cogitar o pior: armadilhas, chacinas, ataques. Se tudo tivesse ido bem, ele teria respondido sem hesitar. Ele respirou fundo, olhou nos meus olhos e começou a falar.
- Nimue... Era uma armadilha. Apareceram soldados de ambos os reis e massacraram o nosso povo. Os poucos que sobreviveram estão nesse navio. Alguns quiseram voltar para a floresta, e não pudemos impedir.
Entrei no navio atordoada. Sentei no primeiro banquinho que vi, tentando me acalmar. Eu mal conseguia respirar normalmente, nesse ponto. Todo o meu esforço tinha resultado nisso? Eu poderia ter sido mais cautelosa. Poderia ter ouvido apenas à mim mesma, ou apenas aos meus conselheiros. Poderia ter feito tantas, tantas coisas para evitar que isso acontecesse. Isso não me tornava uma boa rainha. Não me tornava no mínimo uma boa regente. Pensar que de tantas pessoas, sobreviveram pessoas o suficiente para caberem em um navio e poucas se refugiarem na floresta. Agora também tinham feéricos soltos e desprotegidos, que poderiam ser atingidos à qualquer tempo. Parecíamos estar em um lugar mais afastado da presença dos Paladinos, mas mesmo assim ainda era perigoso, e em breve eles tomariam conta da ilha.
- Você não tinha como saber, minha rainha. Você fez tudo o que podia e se desdobrou em várias, não precisa se crucificar por isso. - Arthur disse.
- Talvez eu devesse ter me afogado de verdade no lago. Era melhor do que ter ouvido uma notícia dessas. - respondi, prendendo o choro.
Saí andando sem olhar para trás. Queria ficar sozinha, esquecer disso. Mas logo na primeira cabine que eu entrei, onde não esperava encontrar ninguém, encontrei a pessoa mais improvável possível, sentada em um caixote, cabisbaixa, e rolando uma moeda entre seus dedos.
- Merlin? - o chamei.
Ele olhou para mim, desacreditado. Imediatamente veio na minha direção e me abraçou. Era como se eu precisasse daquilo, depois do dia louco que eu tinha tido.
- Você está bem? Eu juro que te vi à beira da morte. Como você chegou até aqui?
- Eu tenho as mesmas perguntas que você. Preciso que você me conte tudo que aconteceu, em detalhes.
Abracei-o de novo, esperando que isso confortasse a dor de perder tantos indivíduos do meu próprio sangue. Conversamos, ele me atualizou de tudo que tinha acontecido nos últimos dias, e eu escolhi ficar sozinha, posteriormente. Ficava refletindo o que todos já tinham me dito naquele dia.
Fizeram um jantar farto, dizendo que era uma comemoração pela rainha ter voltado. Mas eu não me sentia rainha. Todos os meus sorrisos naquela noite eram forçados, e eu não me sentia digna de nada daquilo. Pym e a própria Lança Vermelha vieram me cumprimentar animadas e cheias de saudades, o que fazia eu me sentir menos pior. Quando tive a oportunidade, saí dessa sala e parti para um corredor que dava uma visão linda para o oceano.
Mal pude contemplar essa visão, quando ouvi passos no corredor. Era Percival, andando apressado e carregando algo por baixo da sua capa. Fiquei extremamente feliz em vê-lo, e ele parecia feliz em me ver também. Nos abraçamos, perguntei o que ele carregava por baixo da capa e ele me mostrou algumas comidas. Disse que eram "reserva pra caso a fome apareça", e eu fingi que acreditei. Fingi porque sabia quando ele mentia, e essa era uma dessas vezes. Assim que ele saiu do corredor, passei a segui-lo.
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Hurricane | Nimulot
FanfictionLancelot, antes um guerreiro dos Paladinos, se junta à Nimue e seus aliados. Mas, será que a ligação de ambos poderá sobreviver à guerra que libertará os feéricos? Atenção: é necessário ter terminado de assistir a série "Cursed - A Lenda do Lago" p...