Capítulo 12 - Abril

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Terça-feira


— Bom dia, Abby.

Parei com a mão na gaveta dos talheres.

Emma entrou na cozinha ainda de pijama, com o cabelo um pouco amassado do sono e os olhos baixos, mas havia algo diferente na voz dela. Uma suavidade tímida. Quase cautelosa.

Como se estivesse testando o som de ser gentil comigo.

Meu peito se aqueceu de um jeito ridículo.

— Bom dia, Emma — respondi, tentando sorrir sem parecer emocionada demais. — Dormiu bem?

Ela deu de ombros, subindo em uma das banquetas da bancada.

— Mais ou menos.

Com Emma, aquilo já era uma resposta completa.

— Quer cereal antes da escola?

Ela ficou quieta por um segundo, os dedos mexendo na barra da manga.

— Na verdade... posso comer uma omelete?

O pedido me pegou desprevenida.

Era pequeno. Simples. Qualquer outra pessoa talvez nem percebesse. Mas Emma havia se agarrado ao cereal da avó como se fosse uma regra sagrada, uma última parte da rotina que ainda pertencia a ela. Pedir uma omelete não era apenas escolher outro café da manhã.

Era abrir uma porta.

Bem pequena.

Mas uma porta.

— Claro que pode — falei, virando-me para a geladeira antes que meu rosto entregasse tudo. — Você quer servir um pouco de suco enquanto eu preparo?

Ela desceu da banqueta e pegou o copo sem reclamar.

Sem suspirar.

Sem revirar os olhos.

Eu quase quis chamar alguém para testemunhar.

Enquanto quebrava os ovos em uma tigela, observei Emma pelo canto dos olhos. Ela ainda se movia com cuidado, como se cada gesto precisasse ser aprovado por algum sistema invisível. Talvez fosse a casa. Talvez fosse a rotina. Talvez fosse o luto. Talvez fosse tudo junto.

Eu me perguntava como Emma tinha sido antes. Antes da morte da mãe. Antes da avó adoecer. Antes de aprender que adultos podiam desaparecer de um dia para o outro, às vezes para sempre, às vezes para países distantes.

— Você lembra que hoje temos a consulta com a Ana? — perguntei, com cuidado.

O corpo dela ficou imóvel por um instante, de costas para mim.

Esperei.

Depois de alguns segundos, Emma assentiu.

— Depois da escola?

— Isso.

— Você vai comigo?

A pergunta veio baixa, mas direta.

— Vou, se você quiser.

Ela se virou, segurando o copo de suco com as duas mãos.

— Quero.

A palavra saiu pequena.

Meu coração, que já estava sensível demais, apertou outra vez.

— Então eu vou.

— Você fica na sala?

— Posso ficar onde você se sentir melhor. Se quiser que eu entre com você, entro. Se quiser que eu espere do lado de fora, espero. A Ana também vai respeitar isso.

Amando a BabáHistórias para pegar e não largar. Descubra agora