Quinta-feira
— Eu não gosto de acordar tão cedo — Emma resmungou, esfregando os olhos com as costas da mão.
O cabelo dela estava amassado de um lado, a blusa amarrotada, a expressão fechada de uma pessoa profundamente ofendida pela existência da manhã. Em viagens de trabalho, horários como aquele costumavam deixar meu humor intragável.
Mas aquela era outra coisa.
Uma viagem com Emma.
Essa diferença parecia pequena no papel. Na prática, mudava tudo.
— Quanto antes sairmos, antes chegamos — respondi, fechando a mala dela.
Emma me lançou um olhar acusador.
— Isso é uma frase de adulto.
— É uma frase verdadeira.
— Pior ainda.
Ouvi a porta do quarto de Abby abrir no corredor antes de vê-la. Ela apareceu alguns segundos depois, sonolenta, de moletom, cabelo preso de qualquer jeito no alto da cabeça, rosto limpo, ainda meio perdida entre o sono e a realidade. Havia algo tão simples nela naquele momento que me atingiu mais do que eu gostaria. Era Abby, cansada, humana, bonita de uma forma perigosa justamente por tentar tão pouco.
Desviei o olhar antes que ela percebesse.
— Bom dia — ela murmurou.
— Bom dia — respondi.
Emma virou-se para ela como se tivesse encontrado uma aliada natural.
— Ele disse que vamos chegar mais rápido porque acordamos no meio da noite.
Abby bocejou, tapando a boca com a mão.
— Infelizmente, ele tem razão.
— Traidora.
— Eu também queria estar na cama, se isso ajuda.
— Ajuda um pouco.
A troca entre as duas arrancou de mim um sorriso breve. Emma ainda estava irritada, Abby ainda estava meio adormecida, mas havia ali uma familiaridade que eu já não conseguia fingir que não via. Elas funcionavam juntas. Tinham ritmo próprio, pequenos códigos, uma facilidade que eu ainda estava aprendendo a construir com minha filha.
Peguei as malas maiores.
— Vamos. O carro já está esperando.
Descemos em silêncio, os três ainda presos àquela lentidão de madrugada. No elevador, Emma apoiou a cabeça no ombro de Abby e fechou os olhos. Abby passou um braço ao redor dela, sem dizer nada. O gesto foi tão natural que fiquei observando tempo demais.
Quando ela ergueu os olhos e encontrou os meus, algo passou entre nós.
Havia desejo, claro. Estava sempre ali. Mas havia também a lembrança da noite anterior no escritório, da conversa antes do toque, da forma como ela tinha dito que Emma vinha primeiro. Havia cuidado. Medo. Uma espécie de acordo silencioso que nenhum de nós sabia ainda como cumprir.
As portas se abriram antes que eu precisasse dizer qualquer coisa.
O motorista colocou as malas no carro, e Emma adormeceu quase no instante em que entrou. Encolheu-se no banco com a pelúcia apertada contra o peito, como se tivesse planejado reclamar apenas até encontrar uma superfície confortável.
Abby riu baixo.
— Ela resistiu bravamente por três minutos.
— Um recorde.
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Amando a Babá
RomanceLeon Anderson precisa de uma babá. Após perder a esposa, ele se vê sozinho para cuidar da filha enquanto tenta conciliar a paternidade com as constantes viagens de trabalho. A solução surge na forma de Abril Rivera, uma jovem gentil do sul que també...
