Terça-feira
Encarei meu reflexo no espelho por mais tempo do que pretendia.
O rosto era o mesmo. As linhas cansadas ao redor dos olhos, a barba por fazer, o cabelo ainda úmido depois do banho. Tudo reconhecível. Ainda assim, havia algo diferente na forma como eu olhava de volta para mim mesmo. Como se, em poucos dias, aquela casa tivesse removido uma camada de controle que passei anos aperfeiçoando.
Abby tinha ficado.
Por enquanto.
A conversa da noite anterior não tinha consertado tudo, mas pelo menos tinha impedido que ela fosse embora. Eu pedi desculpas. Ela ouviu. Impôs limites. Eu aceitei.
Também foi uma tortura.
Porque aceitar manter distância de Abby era fácil em teoria. Bastava transformar o desejo em disciplina, a culpa em cuidado, a convivência em rotina. Eu sabia seguir regras. Sabia manter acordos. Sabia colocar uma linha no chão e não atravessá-la.
O problema era que Abby estava do outro lado da linha.
E morava na minha casa.
Passei a mão pelo rosto e me afastei do espelho antes que o pensamento se tornasse mais perigoso. Ainda era cedo. Emma provavelmente dormiria mais alguns minutos, e Abby também. Por isso, em vez de voltar para a cama, fui para a cozinha.
Eu poderia fazer algo útil.
Algo simples.
Café da manhã.
Abby preparava comida para nós quase todas as manhãs desde que chegara. Fazia isso sem grande cerimônia, como se alimentar pessoas fosse uma extensão natural da maneira como cuidava do mundo. Eu tinha aceitado rápido demais. Como aceitava tantas coisas quando alguém competente aparecia para resolver aquilo que eu não sabia fazer.
Naquela manhã, eu queria fazer diferente.
Não como pedido de desculpas, pelo menos não apenas. Como uma forma pequena de provar que eu conseguia participar da casa em vez de apenas administrá-la.
Abri a geladeira e avaliei o que tínhamos. Ovos, cogumelos, tomates, bacon, feijão, pão. Um café da manhã inglês parecia ambicioso para alguém que raramente cozinhava mais do que café e torradas, mas ambição nunca foi exatamente meu problema.
Quando o cheiro começou a ocupar a cozinha, ouvi passos pequenos no corredor.
Emma apareceu de pijama, esfregando os olhos com uma mão e segurando uma pelúcia pela orelha com a outra. Parou ao me ver diante do fogão.
— O que você está fazendo?
A desconfiança na voz dela quase me fez rir.
— Cozinhando.
Ela olhou para a frigideira, depois para mim.
— Por quê?
— Porque pessoas cozinham.
— Você não.
— Hoje, sim.
Emma se aproximou devagar, como se eu pudesse explodir ou queimar a cozinha a qualquer momento.
— Isso é bacon?
— É.
— Posso ajudar?
— Pode. Mas com cuidado.
Arrastei um banquinho para perto da bancada, longe do fogo, e entreguei a ela uma colher.
— O feijão precisa ser mexido. Essa é uma responsabilidade séria.
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Amando a Babá
RomanceLeon Anderson precisa de uma babá. Após perder a esposa, ele se vê sozinho para cuidar da filha enquanto tenta conciliar a paternidade com as constantes viagens de trabalho. A solução surge na forma de Abril Rivera, uma jovem gentil do sul que també...
