Capítulo 27 - Leon

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Segunda-feira


Depois de buscar Emma na escola e ouvi-la falar sem parar durante o caminho para casa, eu tinha me instalado na sala com uma xícara de café que mal toquei.

— Então, o que você acha que isso quer dizer? — Abby perguntou, inclinada sobre o caderno de Emma. — Qual foi o erro do Alfie?

Eu estava do outro lado da sala, tentando fingir que não observava as duas há tempo demais.

Abby tinha o cabelo solto sobre um ombro, ainda um pouco úmido do banho, e usava uma blusa simples que não deveria ter chamado minha atenção de forma alguma. Ainda assim, chamava. Tudo nela chamava. O jeito como apoiava o cotovelo na mesa. A paciência na voz. A maneira como se inclinava para Emma sem invadir o espaço dela. O sorriso pequeno quando minha filha pensava antes de responder.

Depois daquela manhã, eu deveria ter mantido distância. Na prática, estava ali, olhando para ela como um homem sem juízo.

— Ele rasgou o convite — Emma respondeu, franzindo a testa para o livro. — Isso foi errado.

— Por quê?

— Porque o amigo dele ficou triste.

— E o que ele podia ter feito?

Emma pensou por um segundo, balançando o lápis entre os dedos.

— Dizer que não queria ir. Mas sem rasgar. Rasgar foi dramático.

Abby riu baixo.

— Concordo. Muito dramático.

— Eu iria à festa — Emma acrescentou. — Mas eu gosto de festas.

— Eu também.

— Você gosta de qualquer coisa que tenha bolo.

— Isso é um ataque ou um elogio?

Emma sorriu para o caderno.

— Os dois.

Abby apontou para a linha em branco.

— Então, escreva isso com suas palavras.

Enquanto Emma se concentrava, Abby ergueu os olhos e encontrou os meus.

Foi apenas um segundo.

Um sorriso breve, quase cúmplice, atravessou o rosto dela antes que voltasse para o caderno.

A manhã não tinha desaparecido. Eu ainda sentia o corpo dela contra o meu, ainda ouvia sua voz no quarto, ainda lembrava a forma como ela ficou comigo por alguns minutos depois, como se o mundo pudesse esperar do lado de fora. Mas havia algo diferente agora. Menos raiva. Menos fuga. Uma espécie de segredo quieto entre nós, perigoso justamente porque parecia bom.

— Obrigado — murmurei quando ela passou por mim para pegar café.

Abby me olhou de lado.

— Pelo quê?

Olhei para Emma, que escrevia devagar, a língua presa entre os dentes.

— Por isso.

A expressão dela suavizou.

— Ela está fazendo o trabalho. Eu só estou sentada aqui.

— Você sabe que é mais do que isso.

Abby desviou o olhar primeiro, e talvez fosse melhor assim.

Emma terminou a frase com um ponto tão firme que quase furou o papel.

— Pronto.

— Quer ler? — Abby perguntou.

Amando a BabáHistórias para pegar e não largar. Descubra agora