Terça-feira
Parei diante da porta do quarto de Leon com a mão suspensa no ar.
De novo.
A situação era quase ridícula. Na noite anterior, eu tinha ficado naquele mesmo lugar, com o coração disparado, o corpo inteiro zumbindo e a certeza vergonhosa de que bastaria bater para tudo acontecer outra vez. Eu sabia aonde aquela porta levava. Sabia o cheiro do quarto dele, o peso do corpo dele, a forma como a voz dele mudava quando dizia meu nome no escuro.
E, mesmo assim, não bati.
Quando Leon dava o primeiro passo, era mais fácil fingir que eu apenas tinha cedido. Como se a culpa ficasse dividida de forma mais confortável. Mas, se eu levantasse a mão e chamasse por ele no meio da noite, aquilo mudaria alguma coisa. Seria meu desejo, minha escolha, minha fraqueza.
Talvez fosse por isso que eu estava tão assustada.
Felizmente, ele não estava ali agora. Leon tinha saído cedo para resolver alguma coisa com Lily, e Emma estava na escola. Ainda assim, o quarto parecia ocupado por ele. A porta fechada, o corredor silencioso, a memória do perfume caro que parecia pairar na minha cabeça mesmo quando eu sabia que estava imaginando.
Afastei-me antes que fizesse algo patético, como entrar só para respirar o travesseiro dele.
Meu Deus.
Eu era um clichê ambulante.
A babá de cidade pequena, mais jovem, envolvida com o patrão rico, viúvo e complicado. Se eu lesse aquilo num livro, talvez revirasse os olhos. Vivendo, porém, parecia menos absurdo e mais perigoso. Leon não era uma fantasia simples. Era um homem real, com uma filha real, uma casa real, problemas reais e a capacidade irritante de me fazer esquecer tudo isso quando me tocava.
E agora havia o Havaí.
A ideia ainda parecia irreal. Eu, Emma e Leon numa ilha ensolarada, longe da cobertura, longe da rotina, longe das regras que já eram difíceis de seguir em Nova York. Eu deveria ter recusado. Deveria ter insistido que aquela viagem era deles, pai e filha, algo recomendado por Ana para fortalecer o vínculo dos dois.
Então, Emma segurou minha mão e pediu para eu ir.
E eu fui fraca.
Ou talvez apenas já a amasse demais para dizer não.
A verdade era que eu também queria ir. Nunca estive no Havaí. Provavelmente jamais teria uma oportunidade dessas de novo. Havia uma parte de mim, a parte que ainda se lembrava da menina da Virgínia sonhando com o mundo além da própria cidade, que queria ver o mar azul, as flores, os hotéis, a luz dourada, tudo aquilo que parecia existir apenas em fotografias.
A outra parte sabia que viajar com Leon era brincar com fogo.
E eu já estava queimada.
Olhei para o relógio.
Ainda faltavam alguns minutos para o almoço com Madison, e eu estava grata por isso de um jeito quase desesperado. Não podia contar tudo a ela. Não devia. Mas sair da cobertura, respirar outro ar e lembrar que existiam pessoas além daquela casa talvez me ajudasse a recuperar algum juízo.
Passei pela sala arrumando pequenas coisas que já estavam arrumadas. Endireitei uma almofada. Recolhi uma manta. Guardei uma caneca limpa no armário errado e tive de tirá-la de novo. Em cada canto, havia vestígios de Emma. Um lápis esquecido na mesa, uma meia atrás do sofá, um livro aberto virado para baixo como se ela pretendesse voltar a qualquer segundo.
Eu estava apegada demais.
A Emma. À cobertura. À Olga, que fazia café como se estivesse oferecendo consolo em forma líquida. Ao Vincenzo, com seus cumprimentos dramáticos. À Madison, que surgira de modo inesperado e começara a ocupar um espaço que eu nem sabia estar vazio.
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Amando a Babá
RomanceLeon Anderson precisa de uma babá. Após perder a esposa, ele se vê sozinho para cuidar da filha enquanto tenta conciliar a paternidade com as constantes viagens de trabalho. A solução surge na forma de Abril Rivera, uma jovem gentil do sul que també...
