Terça-feira
A porta se fechou atrás de Abby com um clique cuidadoso demais.
Nem isso ela fez com raiva.
E talvez essa fosse a parte mais irritante.
Fiquei recostado contra os travesseiros, a bandeja ao lado, a omelete esfriando aos poucos, e encarei a madeira como se pudesse atravessá-la apenas com o olhar. Meu peito ainda ardia, parte pela febre, parte pela discussão, parte por aquela mulher ter entrado no meu quarto, dito exatamente o que pensava e saído como se eu fosse o problema a ser resolvido depois.
Abby.
Eu havia começado a chamá-la assim sem perceber.
Aquilo também me irritou.
Mastiguei um pedaço da omelete e odiei o quanto estava boa. Era simples, bem-feita, no ponto certo. O tipo de comida que parecia carregar cuidado sem pedir reconhecimento por isso. Naturalmente, tinha sido feita por ela. Naturalmente, até irritado eu conseguia perceber.
Isso era inconveniente.
Tudo nela era inconveniente.
O jeito como se movia pela minha casa como se já tivesse encontrado as rachaduras. O jeito como Emma respondia a ela. O jeito como Vincenzo parecia aliviado por sua presença. O jeito como Lily havia aceitado a voz dela ao telefone com rapidez demais. O jeito como eu, mesmo febril, havia ficado escutando quando ela disse que minha filha queria o pai e não sabia pedir.
Como se eu precisasse que uma mulher que trabalhava para mim havia menos de uma semana explicasse minha própria filha.
A raiva voltou, quente e imediata.
Pensei em demiti-la.
O pensamento veio limpo, quase satisfatório. Eu poderia fazer isso. Pagar o que fosse devido, agradecer pelos serviços, colocar Abby Rivera em um voo de volta para a Virgínia e contratar alguém com referências impecáveis, postura discreta e o bom senso de jamais me enfrentar dentro do meu próprio quarto.
Mas então vi o rosto de Emma.
Vi a forma como minha filha olhava para Abby. A maneira como havia perguntado por ela, pedido que a acompanhasse, aceitado uma omelete, sentado no sofá enquanto eu estava doente. Pequenos gestos. Quase invisíveis. Ainda assim, mais do que eu havia conseguido dela em meses.
Abby podia ser irritante.
Podia ser ousada demais.
Podia ter uma habilidade infernal de me deixar sem resposta.
Mas ajudava Emma.
E isso tornava tudo mais complicado.
— Droga — murmurei.
A minha voz saiu rouca, arranhada.
Deixei o garfo sobre o prato e passei a mão pelo rosto. A febre tinha baixado um pouco, mas meu corpo ainda parecia pesado, instável, como se cada osso tivesse sido preenchido com areia. Mesmo assim, eu precisava levantar. Precisava de um banho. Precisava de água quente, silêncio e alguns minutos longe da bandeja, da cama, da voz de Abby ecoando no quarto.
Sugiro que sente ao lado dela mesmo sem saber.
Fechei os olhos.
Maldição.
A frase continuava ali.
Levantei-me devagar, usando a mesa de cabeceira como apoio. O quarto inclinou por um segundo, mas consegui permanecer de pé. Foi uma vitória pequena, humilhante e, ainda assim, necessária. Andei até o banheiro com cuidado, recusando-me a pensar no que Abby diria se me visse cambaleando como um homem de noventa anos.
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Amando a Babá
RomanceLeon Anderson precisa de uma babá. Após perder a esposa, ele se vê sozinho para cuidar da filha enquanto tenta conciliar a paternidade com as constantes viagens de trabalho. A solução surge na forma de Abril Rivera, uma jovem gentil do sul que també...
