Segunda-feira
Cantei no chuveiro pela primeira vez em dias.
A água quente descia pelos meus ombros, meu cabelo estava pesado, encharcado, e eu sentia uma leveza quase perigosa no peito. Leon só voltaria no dia seguinte. Emma estava na escola. Olga não trabalhava às segundas. Madison havia prometido aparecer mais tarde para devolver uma travessa.
Por algumas horas, a cobertura era minha.
Minha e do silêncio.
Depois de tantos dias andando com cuidado, evitando corredores, pensamentos e lembranças, eu finalmente conseguia respirar. Talvez a distância tivesse feito bem. Talvez Tóquio tivesse colocado espaço suficiente entre mim e Leon para que as coisas encontrassem algum tipo de forma suportável. Quando ele voltasse, poderíamos existir na mesma casa sem nos encostar.
Era uma esperança frágil, mas naquela manhã eu queria acreditar nela.
Desliguei o chuveiro, torci o excesso de água do cabelo e saí do box. O espelho estava embaçado. Desenhei um risco com o dedo no vapor, sem motivo algum, e sorri para o reflexo borrado.
Eu parecia melhor.
Ou talvez apenas parecesse menos assustada.
Enrolei uma toalha grande ao redor do corpo e deixei o cabelo solto, pingando pelas costas. Antes de me vestir, queria café. Depois talvez yoga na sala, música baixa, uma caminhada pelo quarteirão, qualquer coisa que me lembrasse que eu ainda tinha uma vida dentro daquela cidade e não apenas dentro dos problemas daquela casa.
Fui pelo corredor cantarolando sem ritmo.
A cobertura estava quieta demais para me julgar.
— Lá, lá, lá... — murmurei, indo para a cozinha. — Só café primeiro, depois o resto do mundo...
Parei no meio da sala.
Leon estava sentado no sofá.
Por um segundo, meu cérebro recusou a imagem. Ele não pertencia àquele cenário, não naquele dia, não àquela hora, não enquanto eu estava molhada, descalça, enrolada apenas numa toalha e convencida de que ainda tinha mais vinte e quatro horas para preparar minha coragem.
— Meu Deus!
A toalha escorregou antes que eu conseguisse segurá-la.
Caiu aos meus pés em um monte branco e inútil.
Fiquei nua no meio da sala.
Leon se levantou rápido demais, mas parou no mesmo instante, como se qualquer movimento pudesse piorar tudo. Seus olhos desceram por mim por uma fração de segundo. Foi rápido. Ainda assim, senti o olhar dele como uma mão.
Então ele virou o rosto.
— Abby.
A voz saiu rouca.
A vergonha subiu pelo meu corpo inteiro. Abaixei-me depressa, puxando a toalha do chão, atrapalhada, furiosa com minhas mãos tremendo.
— O que você está fazendo aqui? Você disse terça.
— Consegui antecipar o voo. Eu ia avisar, mas cheguei e ouvi o chuveiro. Pensei em esperar você aparecer para não assustar.
Soltei uma risada nervosa, ainda tentando prender a toalha ao corpo.
— Funcionou maravilhosamente.
Leon respirou fundo, de costas para mim.
— Desculpa.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Amando a Babá
RomanceLeon Anderson precisa de uma babá. Após perder a esposa, ele se vê sozinho para cuidar da filha enquanto tenta conciliar a paternidade com as constantes viagens de trabalho. A solução surge na forma de Abril Rivera, uma jovem gentil do sul que també...
