Capítulo 34 - Abril

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Sexta-feira


Minha pele estava em chamas.

Tirei a camiseta com todo o cuidado possível e ainda assim prendi a respiração quando o tecido roçou meus ombros. A dor se espalhou pelas costas, braços e peito num ardor quente, insistente, quase humilhante. Eu sabia que tinha exagerado. Sabia desde a praia, desde o mercado, desde o instante em que senti o sol atravessar a proteção fraca demais e marcar minha pele como punição.

Mas eu queria tudo.

Emma rindo no mar. Leon comprando lembranças com a paciência desajeitada de um pai que ainda aprendia a fazer aquilo sem transformar tudo em solução prática. A forma como o Havaí parecia abrir algo em nós três, puxando nossa pequena confusão para fora da sombra.

Agora eu estava pagando por isso.

Caí de bruços na cama e soltei um gemido baixo contra o travesseiro. A cabeça estava pesada, o corpo mole, e até respirar parecia exigir cuidado. O quarto estava fresco, a luz filtrada pelas cortinas se movia suavemente nas paredes, e tudo o que eu queria era dormir até minha pele se esquecer de que existia.

A porta se abriu sem aviso.

— Abby, podemos sair agora? — Emma entrou quase saltando. — Quero fazer a caminhada da vida selvagem.

Fechei os olhos por um segundo.

Por ela, eu teria ido. Mesmo ardendo, mesmo cansada, mesmo com a cabeça pesada, eu teria tentado levantar. Foi isso que mais me assustou. Emma tinha se tornado o tipo de pessoa por quem eu ignoraria meu próprio limite, e eu já conhecia bem demais o perigo de passar a vida inteira fazendo isso por amor.

— Sinto muito, querida — respondi, a voz áspera. — Acho que hoje eu não consigo.

Emma parou.

O entusiasmo dela murchou tão depressa que doeu mais do que a queimadura.

— Mas você disse que íamos procurar animais.

— Eu sei. E vamos procurar. Só preciso descansar primeiro. Amanhã fazemos uma caminhada maior, com caderno, água, tudo certinho.

— Amanhã é muito longe.

Sorri contra o travesseiro, sem força para levantar a cabeça.

— Para uma pesquisadora impaciente, imagino que sim.

Ela ficou quieta.

Quando olhei de lado, vi o rosto dela fechado. Não com raiva simples. Era aquela expressão antiga, a que ela usava quando esperava ser deixada para trás e tentava fingir que não se importava.

Meu peito apertou.

— Emma...

— Tudo bem — disse, rápido demais. — Eu posso ir sozinha.

— De jeito nenhum.

— Então não vou.

— Você pode ir com seu pai.

Ela olhou para a porta, como se aquela possibilidade nem tivesse sido considerada de verdade.

— Mas eu queria ir com você.

As palavras eram pequenas.

E enormes.

Tentei estender a mão para ela, mas o movimento puxou a pele das costas e fiz uma careta antes de conseguir disfarçar. Emma viu. O rosto dela mudou.

— Dói muito?

— Um pouco.

— Você está mentindo.

Amando a BabáHistórias para pegar e não largar. Descubra agora