Capítulo 1 - Leon

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Domingo


A ruga no paletó estava no lugar errado.

Pequena, quase invisível, logo acima do bolso esquerdo. Qualquer outra pessoa teria ignorado. Eu, porém, encarava aquele vinco havia quase dez minutos, como se ele fosse uma afronta pessoal.

Passei a mão pelo tecido preto mais uma vez, alisando-o com força suficiente para marcar os dedos. O terno era italiano, feito sob medida, escolhido naquela manhã com a precisão automática de quem aprendera cedo a vestir autoridade antes mesmo de sentir qualquer coisa. Ainda assim, a ruga permanecia ali, imóvel, teimosa, irritante.

Minha mãe estava sendo enterrada a poucos metros de mim, e eu estava preocupado com um defeito no terno.

A constatação me atingiu com uma violência silenciosa.

Respirei fundo, mantendo o maxilar firme, os ombros alinhados e a expressão sob controle. Eu sabia fazer aquilo. Sabia permanecer de pé quando o mundo exigia uma reação. Sabia cumprimentar pessoas, aceitar condolências, ouvir frases vazias e assentir no momento certo. Havia construído uma vida inteira em cima desse tipo de domínio.

Controle era uma linguagem que eu entendia.

Luto, por outro lado, sempre me pareceu um território mal iluminado.

O caixão começou a descer lentamente, acompanhado pelo murmúrio grave do pastor. Ao meu redor, algumas pessoas choravam. Outras baixavam a cabeça. Permaneci quieto, as mãos fechadas diante do corpo, os olhos fixos na madeira escura que desaparecia pouco a pouco na terra aberta.

Minha mãe estava morta.

Eu havia repetido essa frase tantas vezes nas últimas semanas que ela quase perdera o peso. Quase.

A doença viera rápido demais, sem cerimônia, sem aviso digno. Quando os médicos deram nome ao câncer, ele já havia tomado espaço demais, tempo demais, futuro demais. Um mês. Foi tudo o que restou entre o diagnóstico e aquele buraco no chão.

Parte de mim queria sentir raiva dela. Da teimosia, dos exames adiados, da recusa em admitir fraqueza. Outra parte sabia que eu herdara exatamente isso: a rigidez, o orgulho, a capacidade quase cruel de transformar dor em silêncio.

Ela tinha sido uma mulher difícil. Fria, disciplinada, exigente. Nunca fomos próximos da maneira que mães e filhos deveriam ser. Havia respeito entre nós, sim. Obrigação. Uma forma dura de lealdade. Amor, talvez. Mas aquele tipo de amor que passa anos sem ser nomeado e, quando finalmente precisa ser dito, chega tarde.

Tarde parecia ser uma especialidade minha.

Olhei para a pequena multidão reunida ao redor do túmulo. Alguns rostos pertenciam a parentes distantes que eu via apenas em funerais e casamentos. Outros eram conhecidos da igreja, antigos vizinhos, pessoas com quem minha mãe havia tratado com uma gentileza reservada que raramente oferecia dentro de casa. Todos pareciam possuir uma versão dela que eu nunca soubera alcançar.

Para eles, ela era uma mulher firme, devota, respeitável. Para mim, foi sempre uma presença de portas fechadas, horários rígidos e expectativas impossíveis.

Mesmo assim, ela estivera lá.

Quando Katy morreu, foi minha mãe quem entrou na minha casa sem pedir permissão e assumiu o que eu não conseguia tocar. A rotina de Emma. As refeições. A escola. Os médicos. Os pesadelos. A vida miúda e essencial que continuava mesmo depois que a minha tinha parado.

Eu disse a mim mesmo, durante anos, que ela fazia aquilo melhor do que eu. Que Emma precisava de estabilidade. Que a empresa precisava de mim. Que era uma fase, uma solução temporária, algo que eu corrigiria quando a dor deixasse de me partir por dentro.

Amando a BabáHistórias para pegar e não largar. Descubra agora