Quarta-feira
Alguma coisa tinha mudado em Leon.
Eu percebi antes mesmo de ele recusar o jantar.
Havia algo fechado nele desde que voltara do escritório. Era diferente da distância fria de antes, daquela armadura natural que ele usava, e também da impaciência seca que aparecia quando estava cansado. Era outra coisa. Uma inquietação contida, quase silenciosa, que atravessava os gestos dele e deixava o apartamento mais pesado.
A viagem explicava parte daquilo.
Eu também.
E Madison, agora, ocupava um espaço novo entre nós.
Desde o almoço, a verdade ainda batia dentro de mim em momentos inesperados: Madison era irmã de Leon. Emma tinha uma tia no mesmo prédio. E Leon, de algum modo, tinha conseguido transformar até isso em distância. Eu ainda tentava entender o que fazer com aquela informação e se tinha o direito de cobrá-lo por algo que ele guardara por tanto tempo.
Mexi a massa no fogão enquanto Emma falava sem parar ao meu lado, completamente alheia ao nó que se formava dentro de mim. A viagem para o Havaí havia transformado aquela menina numa versão luminosa de si mesma. Desde que chegara da escola, falava sobre malas, praia, presentes, vulcões, relatório de férias e sobre como "todas as meninas" estavam com ciúmes.
— Não acredito que vou fazer um relatório sobre uma viagem de verdade — disse ela, apoiada na bancada. — É diferente do dever normal. É quase divertido.
— Quase?
— Ainda é escrever.
Sorri, tentando acompanhar.
— Um bom argumento.
— As meninas querem que eu traga lembrancinhas. Você me ajuda a escolher?
— Claro que ajudo.
Emma abriu um sorriso satisfeito, e eu aproveitei aquele brilho enquanto podia. Ela merecia aquela felicidade. Merecia uma viagem bonita com o pai, dias sem consultórios, horários rígidos ou adultos cochichando sobre o que era melhor para ela. Merecia lembrar que ainda havia coisas boas esperando no mundo.
Por isso meu medo era tão forte.
Se Leon tivesse mudado de ideia sobre eu ir, como eu explicaria isso a Emma? Como encararia o rosto dela depois de ter prometido? E, se a razão fosse o que havia acontecido entre nós, como eu viveria com a culpa de transformar a alegria dela em consequência da minha falta de juízo?
— Você pode chamar seu pai? — perguntei, colocando o fogo mais baixo. — O jantar está quase pronto.
Emma saiu saltitando para o corredor.
Fiquei parada diante do fogão, com a colher na mão e o coração batendo alto demais. Era ridículo sentir aquele medo por causa de um jantar, mas eu precisava ver Leon à mesa. Precisava avaliar o rosto dele, o humor, a voz. Precisava saber se aquela mudança era real ou se eu estava inventando problemas porque já não sabia existir em paz naquela casa.
Emma voltou rápido demais.
— Papai disse que vai comer no escritório. Tem um e-mail para terminar.
A colher parou no meio da panela.
— Ah.
Emma seguiu sem notar nada.
— Ele disse que pode comer lá.
— Claro. Eu preparo uma bandeja.
Leon tinha passado semanas tentando aparecer mais para Emma. Jantar com ela. Ajudar com deveres. Fazer perguntas. Estar presente de uma forma ainda imperfeita, mas real. E agora, na noite anterior à viagem, escolhia o escritório outra vez.
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Amando a Babá
RomanceLeon Anderson precisa de uma babá. Após perder a esposa, ele se vê sozinho para cuidar da filha enquanto tenta conciliar a paternidade com as constantes viagens de trabalho. A solução surge na forma de Abril Rivera, uma jovem gentil do sul que també...
