Segunda-feira
Acordei antes de Abby.
Durante alguns segundos, permaneci imóvel, consciente primeiro da claridade do quarto, depois do peso quente ao meu lado. As cortinas estavam meio abertas, deixando a luz da manhã atravessar o quarto em faixas douradas. Eu nunca as deixava assim. Gostava da escuridão controlada, do silêncio, da sensação de que o dia só começava quando eu permitia.
Naquela manhã, o dia já estava lá dentro, e Abby também.
Ela dormia de lado, com o rosto voltado para mim e os cachos espalhados pelo travesseiro. O lençol cobria parte do corpo dela, mas deixava o ombro nu à mostra, a pele marcada por uma luz suave que a fazia parecer serena demais para alguém que havia passado a noite na minha cama.
A lembrança voltou inteira: o escritório, a bandeja esquecida, o corredor atravessado quase sem ar, a porta do quarto fechando atrás de nós e toda a disciplina que eu cultivara por anos desaparecendo sob o peso do desejo.
Passei a mão pelo rosto, devagar.
Eu tinha cruzado uma linha que sabia existir.
Pior: tinha cruzado de olhos abertos.
Abby trabalhava para mim. Morava sob meu teto. Cuidava da minha filha. Emma confiava nela de uma maneira que ainda me surpreendia, e qualquer alteração entre nós poderia atingir diretamente a única relação estável que minha filha parecia construir desde a morte da minha mãe.
Eu sabia de tudo isso ontem. Antes de beijá-la, antes de levar sua mão até a minha, antes de fechar a porta do quarto.
Saber apenas não bastou.
Olhei para Abby outra vez, e a culpa ficou mais difícil de sustentar, porque junto dela havia outra coisa. Satisfação. A noite tinha sido boa. Boa demais. Não havia como fingir o contrário. Meu corpo ainda lembrava dela.
Se tivesse sido apenas um erro ruim, talvez fosse mais simples.
Mas tinha sido um erro que eu queria repetir.
Eu precisava ser racional.
Precisava pensar em Emma, no emprego de Abby, na casa, na diferença de posição entre nós, no risco de transformar desejo em destruição. Precisava encontrar uma forma adulta de lidar com aquilo antes que Abby acordasse e me olhasse esperando uma resposta que eu ainda não tinha.
Ela se mexeu ao meu lado.
Fiquei quieto.
Abby abriu os olhos aos poucos, ainda confusa de sono. Por um instante, pareceu tranquila. Depois a memória chegou, e vi a suavidade do rosto dela mudar. A mão subiu ao lençol, prendendo-o contra o peito, embora eu já tivesse visto tudo que havia para ver.
- Bom dia - falei.
Minha voz saiu baixa, controlada demais.
- Bom dia.
O silêncio entre nós ficou enorme.
Abby desviou os olhos para a janela, depois para o chão, onde parte das nossas roupas ainda estava espalhada.
- O que fazemos agora? - Ela perguntou.
Era a pergunta certa.
Eu deveria ter respondido com honestidade.
Deveria ter dito que não sabia, mas que ela merecia mais do que silêncio. Que eu a desejava e, justamente por isso, precisava ter cuidado. Que jamais quis fazê-la sentir-se usada. Que Emma vinha antes de qualquer coisa e que, se Abby quisesse manter distância, eu respeitaria.
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Amando a Babá
RomanceLeon Anderson precisa de uma babá. Após perder a esposa, ele se vê sozinho para cuidar da filha enquanto tenta conciliar a paternidade com as constantes viagens de trabalho. A solução surge na forma de Abril Rivera, uma jovem gentil do sul que també...
