Segunda-feira
Eu precisava sair da Virgínia.
Foi o primeiro pensamento que tive ao abrir os olhos, o mesmo que vinha me acompanhando todas as manhãs nos últimos cinco meses. Antes mesmo de lembrar que dia era, antes mesmo de entender a luz atravessando a janela, aquela certeza já estava ali, sentada no meu peito como uma coisa viva.
Eu precisava sair dali antes que aquele lugar terminasse de me apagar.
Suspirei e levei a mão ao rosto, bloqueando a claridade branca que invadia o quarto. A casa estava silenciosa demais. Grande demais. Cheia demais de lembranças para alguém que havia ficado sozinha.
Durante anos, aquele silêncio tinha sido familiar. Era o som do meu pai dormindo depois dos remédios. Da minha mãe andando devagar pelo corredor para não acordá-lo. Das manhãs em que eu prendia o cabelo às pressas antes de ir para a pré-escola e deixava uma lista de horários grudada na geladeira. Era um silêncio de cuidado, de medo, de espera.
Agora, parecia uma sentença.
Fiquei alguns minutos deitada, olhando para o teto que eu conhecia desde criança. Havia uma rachadura fina perto da luminária, uma marca antiga de um vazamento que meu pai prometera consertar "no fim de semana", antes de a doença começar a transformar todos os fins de semana em consultas, exames e cansaço. Eu conhecia cada detalhe daquela casa, cada rangido do piso, cada porta que emperrava, cada canto onde uma lembrança podia me pegar desprevenida.
Por isso precisava ir embora.
Sempre achei que sairia assim que terminasse minha formação como professora. Eu tinha planos. Planos grandes, ambiciosos, bonitos demais para caberem naquela cidade pequena. Queria trabalhar com crianças, construir uma vida por conta própria e morar em Nova York, o centro de tudo.
Eu nunca estive lá, mas conhecia a cidade por fotografias, filmes, reportagens e recortes de revista que colecionava desde adolescente. Manhattan parecia existir em algum lugar entre a realidade e o sonho. Prédios altos, luzes, gente atravessando ruas com pressa, cafés lotados, vitrines brilhantes, vidas começando a cada esquina.
Durante muito tempo, era nisso que eu pensava quando as coisas ficavam difíceis.
Um dia, eu vou estar lá.
Só que a vida tinha uma maneira cruel de testar sonhos.
Pouco antes de eu concluir o curso, meu pai adoeceu. No começo, todos tentamos acreditar que seria passageiro. Depois vieram os exames, os médicos, os remédios, as noites mal dormidas e aquela sensação horrível de assistir alguém que você ama desaparecer lentamente diante dos seus olhos.
Meu pai sempre havia sido o homem mais forte que eu conhecia. O tipo de pessoa que consertava qualquer coisa, que carregava sacolas demais de uma vez, que ria alto, que chamava minha mãe para dançar na cozinha quando uma música antiga tocava no rádio. Então a doença o transformou em silêncio, fragilidade e dor, e eu odiei cada segundo em que precisei fingir coragem para que ele não visse o quanto eu estava assustada.
Minha mãe desmoronou antes mesmo de admitir. Ela tentava se manter firme, mas eu via. Via no jeito como esquecia a chaleira no fogo, como chorava escondida no banheiro, como apertava a mão dele enquanto fingia que ainda tínhamos tempo.
Por isso eu fiquei.
Recusei o cargo de professora que me haviam oferecido na cidade e aceitei algumas horas em uma pré-escola. Era o máximo que eu conseguia fazer enquanto ajudava em casa. Trabalhava quando podia, cuidava do meu pai quando precisava e tentava segurar minha mãe nos dias em que ela parecia prestes a cair com ele.
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Amando a Babá
RomanceLeon Anderson precisa de uma babá. Após perder a esposa, ele se vê sozinho para cuidar da filha enquanto tenta conciliar a paternidade com as constantes viagens de trabalho. A solução surge na forma de Abril Rivera, uma jovem gentil do sul que també...
