Capítulo 22 - Abril

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Segunda-feira


Observei Leon sair da cozinha com uma calma que me feriu mais do que qualquer grito teria feito.

Ele beijou Emma no topo da cabeça, disse alguma coisa sobre voltar mais tarde e então atravessou a sala como se aquela manhã fosse apenas mais uma segunda-feira. Como se eu não tivesse acordado na cama dele. Como se ele não tivesse reduzido a noite anterior a uma frase que ainda queimava dentro do meu peito.

Não precisamos transformar isso em algo maior do que foi.

Aquela frase repetia-se na minha cabeça com uma crueldade quase perfeita.

Eu queria odiá-lo.

Durante alguns segundos, odiei mesmo.

Odiei a postura impecável, a voz controlada, a maneira como conseguia sair para o trabalho enquanto eu permanecia ali, presa no lugar onde tudo tinha acontecido. Odiei ainda mais o fato de uma parte estúpida de mim continuar lembrando o toque dele, a boca dele, a forma como meu corpo havia respondido antes que a razão pudesse salvar alguma coisa.

- Abby? - Emma chamou.

Virei-me depressa para ela, forçando o rosto a suavizar.

- Sim, querida?

- Estou pronta para a escola. Só vou pegar minha mochila.

- Claro.

Acompanhei Emma até o carro no piloto automático. Respondi quando ela falou comigo, ajeitei a gola do casaco dela, lembrei o motorista da hora da terapia naquela semana. Fiz tudo certo por fora, mas por dentro eu estava em outro lugar, tentando entender como uma única noite podia transformar uma casa inteira em terreno instável.

Só quando o carro começou a se afastar percebi que Emma estava acenando para mim pela janela.

Levantei a mão tarde demais.

- Tchau - murmurei, mesmo sabendo que ela já não podia ouvir.

A culpa veio imediata.

Se eu fosse embora, talvez aquela tivesse sido uma das nossas últimas manhãs. E eu estava tão consumida pela minha própria vergonha que mal tinha olhado para ela direito.

- Senhorita Abril?

A voz de Vincenzo me fez piscar.

Ele estava junto à porta do prédio, observando-me com cuidado.

- Está tudo bem?

O olhar dele era gentil demais. Quase foi o suficiente para me desmontar.

- Está - respondi, mas a palavra saiu fraca.

Vincenzo não insistiu. Talvez por educação. Talvez porque soubesse reconhecer uma mentira dita por alguém tentando permanecer de pé.

- Estarei aqui se precisar de alguma coisa.

Assenti e entrei no prédio antes que as lágrimas me traíssem no saguão.

No elevador, encostei as costas na parede e fechei os olhos. A subida até a cobertura pareceu longa demais. Quando as portas se abriram, o apartamento me recebeu com sua beleza silenciosa, sua vista perfeita, seus móveis impecáveis e todas as lembranças da noite anterior escondidas atrás de portas fechadas.

Pela primeira vez desde que cheguei a Nova York, aquela cobertura pareceu menos um sonho e mais uma armadilha.

Fui direto para o meu quarto.

Peguei o notebook, sentei-me na cama e abri sites de vagas antes que pudesse mudar de ideia. Babás. Cuidadoras. Assistentes familiares. Qualquer coisa em Nova York que oferecesse moradia ou salário suficiente para eu não precisar voltar à Virgínia.

Amando a BabáHistórias para pegar e não largar. Descubra agora