Capítulo 16 - Abril

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Sexta-feira


Aja com naturalidade.

Repeti a frase para mim mesma enquanto mexia a massa das panquecas, os olhos fixos na tigela como se farinha, leite e ovos exigissem toda a minha concentração.

Aja com naturalidade e não olhe para ele.

Leon estava na cozinha.

Tomava café encostado à bancada, vestindo camisa social com as mangas dobradas até os antebraços, como se a manhã anterior não tivesse acontecido. Como se a boca dele não tivesse tocado a minha. Como se eu não tivesse passado metade da noite acordada, revivendo aqueles poucos segundos e tentando decidir se estava apavorada, arrependida ou desesperada para que acontecesse de novo.

Ele voltara tarde na noite anterior.

Tarde demais.

Eu ouvi o elevador, ouvi os passos contidos, ouvi a porta do quarto dele se fechar. Também senti, quando saí alguns minutos depois para pegar água, um leve cheiro de álcool no ar. Não forte. Não escandaloso. Mas suficiente para minha imaginação fazer o que sabia fazer melhor: me machucar com cenas que talvez nem fossem reais.

Leon em algum bar. Leon sorrindo para outra mulher. Leon tentando apagar o beijo com outra boca.

A massa ficou grossa demais, e eu acrescentei um pouco mais de leite.

— Quer alguma coisa para comer? — perguntei, tentando soar normal.

Minha voz falhou no fim.

Leon percebeu.

Claro que percebeu.

— Sim, por favor. Obrigado.

A rouquidão dele podia ser sono, cansaço ou apenas a tentativa de manter distância. Eu não sabia. Talvez fosse melhor não saber.

— Vou fazer panquecas.

— Tudo bem.

Silêncio.

Grande demais.

Cheio demais.

Eu queria falar sobre o beijo. Queria que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Que tinha sido um erro. Que havia se arrependido. Que não havia se arrependido. Que jamais aconteceria de novo. Que tinha pensado nisso também.

Mas Leon parecia decidido a fingir que nada havia acontecido, e talvez essa fosse a solução adulta. Fingir. Trabalhar. Cuidar de Emma. Manter as coisas no lugar.

O problema era que meus lábios ainda lembravam.

— Devo acordar Emma? — ele perguntou, olhando para o corredor.

A pergunta me trouxe de volta.

— Hoje ela não tem aula. Dia de planejamento dos professores. Ela pode dormir um pouco mais.

Leon franziu a testa.

— Ah.

Ele não sabia.

Tentei não deixar a surpresa aparecer. A informação estava na agenda, mas eu já havia aprendido que Leon conhecia melhor compromissos internacionais do que detalhes comuns da vida da filha.

— Temos planos para hoje — acrescentei. — Vamos ao Museu de História Natural. Emma disse que queria conhecer.

Ele assentiu devagar.

— Parece bom. Ela vai gostar.

Por um segundo horrível, achei que ele se ofereceria para ir junto.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Amando a BabáHistórias para pegar e não largar. Descubra agora