Capítulo 36 - Abril

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Sábado


Depois do almoço, Emma adormeceu no sofá com o caderno aberto no colo.

Leon ficou na varanda, ao telefone com a segurança do resort, encerrando os últimos detalhes da manhã. Falava baixo, de costas para a sala, uma mão na cintura e a outra segurando o celular junto ao ouvido. Ainda havia tensão nos ombros dele. Ainda havia susto espalhado pela casa, como se a manhã tivesse deixado marcas em todos os cômodos.

Eu fiquei olhando para Emma por alguns minutos.

Ela dormia de lado, com uma bochecha amassada contra a almofada e o lápis ainda preso entre os dedos. Parecia pequena outra vez. Pequena demais para ter saído sozinha. Pequena demais para carregar aquela necessidade urgente de provar que conseguia fazer alguma coisa direito.

Foi aí que fui para o quarto.

A mala aberta sobre a cama parecia uma acusação.

Fiquei parada diante dela, com uma blusa dobrada nas mãos e a sensação terrível de que qualquer escolha minha machucaria alguém. Ficar podia estragar tudo. Ir embora também. Eu nem tinha comprado passagem, chamado carro ou decidido para onde iria. A mala era menos um plano do que um instinto, uma tentativa desajeitada de transformar medo em movimento.

A manhã tinha deixado uma marca em mim que o descanso não apagava. Emma desaparecida. Leon pálido de medo. A polícia. A segurança. A praia. O caderno no colo dela. A voz pequena dizendo que só queria terminar o relatório.

Eu ainda conseguia vê-la sentada perto das rochas, séria, concentrada, como se não tivesse acabado de partir o coração de dois adultos ao mesmo tempo.

Ela tinha procurado por nós. Por mim e por Leon. Tinha nos encontrado dormindo, inacessíveis de um jeito que uma criança de sete anos traduziu como ausência.

Essa era a parte que me perseguia.

Eu podia me defender com fatos: estava queimada, exausta, com dor. Leon tinha ficado apenas para cuidar de mim. Emma tomou uma decisão perigosa porque era criança, porque crianças medem riscos de outro jeito. Tudo isso era verdade. Ainda assim, outra verdade pesava por baixo: Leon e eu estávamos tentando viver duas vidas dentro da mesma casa. Uma em que Emma vinha primeiro. Outra em que o desejo entre nós crescia em segredo, nas frestas, nas portas fechadas, nos momentos roubados.

Eu tinha acreditado que conseguiria manter essas duas coisas separadas.

Agora aquela certeza parecia arrogância.

Emma era observadora. Sensível. Ferida. E eu já gostava dela com uma força que tornava qualquer erro maior, qualquer ausência mais cruel, qualquer promessa mais perigosa.

Coloquei a blusa na mala, depois tirei. Dobrei outra vez. Minhas mãos tremiam.

Voltar para Nova York sozinha. Aceitar uma das respostas das outras famílias. Dormir num hotel até encontrar outro emprego. Voltar para a Virgínia, para uma casa que já não parecia minha.

Todas as opções pareciam erradas.

Ficar também.

O vestido azul que Leon comprara no mercado estava dobrado no fundo da cadeira. O colar de vidro repousava sobre a mesa de cabeceira, pequeno e luminoso, como um pedaço de mar que eu ainda não tinha coragem de tocar.

Aquilo era o problema.

O sexo. O beijo. Leon. Emma. A casa. A forma como tudo tinha se misturado sem pedir licença.

Aquela vida começava a parecer minha.

Emma chamando por mim. Leon tentando ser melhor. As refeições compartilhadas. As caminhadas. O riso no sofá. A mão dele na minha por alguns segundos na praia. O modo como eu já sabia onde ficavam os copos, os remédios, o cereal dela, o silêncio dele quando pensava demais.

Amando a BabáHistórias para pegar e não largar. Descubra agora