Capítulo 8 - Abril

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Sexta-feira


— Tudo bem, então. Vejo você mais tarde — falei, tentando soar tranquila. — Tenha um bom dia na escola, Emma.

Ela colocou os fones de ouvido antes mesmo de eu terminar a frase.

Foi deliberado.

Eu sabia que ela tinha me ouvido. Também sabia que esse era exatamente o ponto. Emma queria deixar claro que eu ainda não havia chegado a lugar nenhum com ela.

Fiquei na calçada, observando o carro se afastar, com uma sensação pesada no peito.

Eu só queria ajudar aquela menina.

Mas, de alguma forma, parecia que todos estavam irritados comigo. Emma me tratava como uma invasora. Leon havia encerrado a ligação comigo como se eu tivesse ultrapassado um limite imperdoável ao sugerir que a filha precisava dele. Talvez eu tivesse sido ousada demais. Talvez tivesse falado cedo demais.

Ainda assim, quanto mais eu olhava para a rotina de Emma, mais difícil era ficar calada. A agenda dela tinha espaço para escola, piano, reforço, natação, consultas, motorista, jantar, banho e hora de dormir. Tinha espaço para tudo, menos para o pai.

Depois do que aconteceu no consultório, isso ficou ainda mais claro. Emma precisava de um profissional melhor, sim, mas também precisava de alguém que a enxergasse antes que ela precisasse gritar. Precisava de um adulto que percebesse que o silêncio dela não era educação, e sim defesa.

E, gostasse Leon ou não, naquele momento esse adulto era eu.

Voltei para a cobertura, peguei meu notebook e fui para a biblioteca.

Aquele era, curiosamente, o cômodo menos perfeito da casa. Talvez por isso eu tivesse gostado dele de imediato. A sala de estar parecia feita para visitas importantes; a cozinha, para fotografias de revista; os corredores, para passos silenciosos. A biblioteca, porém, tinha cheiro de papel, madeira encerada e uso. Havia uma escrivaninha em um canto, um sofá baixo perto da janela e prateleiras cheias de livros que quebravam um pouco a frieza impecável do apartamento.

Sentei-me à escrivaninha e abri o computador.

Se Leon queria nomes, eu lhe daria nomes.

Mas nomes certos.

Eu não queria outro profissional com escritório luxuoso, currículo impressionante e pouca sensibilidade. Queria alguém especializado em luto infantil. Alguém que entendesse que criança não fala de dor como adulto. Que soubesse respeitar o silêncio. Que não confundisse resistência com má-criação.

Pesquisei por quase duas horas. Li perfis, avaliações, artigos, entrevistas e abordagens clínicas. Fiz anotações. Descartei os que pareciam frios demais, técnicos demais, interessados demais em parecer importantes. Escrevi e-mails curtos, educados, explicando que procurava atendimento para uma criança de sete anos em luto recente, com perdas familiares acumuladas e dificuldade em confiar em adultos novos.

Quando enviei a última mensagem, recostei-me na cadeira e esfreguei os olhos.

A tela do notebook brilhava demais.

Do lado de fora, Nova York continuava se movendo sem se importar com a minha pequena missão dentro de uma cobertura no vigésimo andar.

Olhei pela janela por alguns segundos.

Eu ainda não conhecia quase nada da cidade. Tinha chegado correndo, sido contratada correndo e entrado na vida de uma família antes mesmo de entender como pegar o metrô sem parecer perdida. Parte de mim queria ficar trancada ali até Emma voltar, com medo de fazer qualquer coisa errada.

Amando a BabáHistórias para pegar e não largar. Descubra agora