Capítulo 17 - Leon

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Sexta-feira


Pai, que horas você chega? A gente vai pedir comida.

Fiquei olhando para a mensagem de Emma por mais tempo do que deveria.

Era uma pergunta simples. Uma pergunta de filha para pai. Ainda assim, havia algo nela que me prendeu à cadeira do escritório com uma força inesperada.

No passado, eu teria respondido quase sem pensar.

Chego tarde. Comam sem mim.

Era prático. Direto. O tipo de resposta que cabia perfeitamente na vida que eu havia construído. Trabalho primeiro. Casa depois. Emma depois, mesmo quando eu dizia a mim mesmo que tudo era por ela.

Mas, naquela tarde, meus dedos não se moveram.

— Lily — chamei, ainda olhando para a tela. — Você precisa que eu fique até tarde hoje?

Ela ergueu os olhos do notebook e me analisou com desconfiança imediata.

— Não necessariamente.

— Ótimo.

— Essa foi uma pergunta perigosa. Você tem planos?

Guardei o celular no bolso, tentando parecer casual.

— Tenho que ajudar Emma com matemática.

Lily piscou.

— Você?

— Eu sou bom com números.

— Isso eu sei. Minha dúvida é se uma criança de sete anos merece ser submetida ao seu método.

— Eu consigo ser paciente com ela.

— Essa frase quase me emocionou.

Lancei-lhe um olhar.

Lily sorriu, mas havia algo mais suave por trás da provocação. Ela sabia. Talvez não todos os detalhes, mas sabia o suficiente para entender que eu estava tentando fazer algo diferente.

— Pode ir — disse ela. — Nada aqui desmorona se você sair no horário.

— Tem certeza?

— Leon, o escritório sobrevive algumas horas sem você. Essa descoberta pode ser chocante, mas é verdadeira.

Eu quase sorri.

Então ela se recostou na cadeira, como se tivesse se lembrado de algo.

— Antes de você fugir para sua nova carreira como tutor de matemática, precisamos falar da Austrália. Ainda não reservei sua passagem porque você estava doente. A viagem continua de pé.

A Austrália.

Eu havia esquecido.

Ou, mais precisamente, uma parte de mim havia escolhido não pensar nisso.

Alguns dias fora. Reuniões importantes. Sol. Distância. A oportunidade perfeita para fugir da cobertura, de Abby, do beijo e daquela tensão silenciosa que vinha ocupando a cozinha desde a manhã anterior.

Deveria ter parecido um alívio.

Não pareceu.

Pensei em Emma olhando para mim do sofá enquanto perguntava se eu ia morrer. Pensei nela dizendo que a avó sempre voltava para casa. Pensei na forma como seus olhos tinham se iluminado quando eu disse que ajudaria com matemática. Pequenas coisas. Coisas ridiculamente pequenas para um homem acostumado a medir importância em contratos, fusões e números grandes demais.

Amando a BabáHistórias para pegar e não largar. Descubra agora