Capítulo 3 - Leon

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Terça-feira


A única razão pela qual eu ainda estava naquele café era Emma.

Se dependesse apenas da minha paciência, eu já teria ido embora.

Passei o olhar pelo relógio pela terceira vez em menos de cinco minutos e fechei a mandíbula, contendo a irritação. Tóquio me esperava. O escritório me esperava. Havia ligações para retornar, documentos para revisar, uma reunião que Lily conduziria certamente com competência, mas sem a delicadeza diplomática que alguns investidores ainda exigiam de mim.

E, ainda assim, eu estava sentado em uma mesa de canto, com uma xícara de café quase vazia à minha frente, esperando por uma mulher que chegava atrasada à própria entrevista.

Abril Rivera.

O nome dela havia se destacado entre os candidatos por um motivo simples: honestidade.

A maioria dos currículos que recebi parecia escrita por pessoas apaixonadas demais por si mesmas. Experientes demais. Perfeitas demais. Conheci esse tipo de profissional muitas vezes ao longo dos anos, principalmente na empresa. Gente que entrava numa sala vendendo competência e, semanas depois, entregava desculpas.

Eu precisava de alguém real.

Alguém que olhasse para Emma e enxergasse uma criança, não apenas um salário generoso, um quarto em uma casa confortável ou uma oportunidade de morar em Nova York. Alguém que entendesse limites sem transformar afeto em espetáculo. Alguém que soubesse permanecer por perto sem exigir gratidão imediata de uma menina que havia perdido mais do que qualquer criança deveria perder.

Mesmo assim, a honestidade perdia parte do encanto quando vinha acompanhada de atraso.

Engoli o último gole de café e estava prestes a empurrar a cadeira para trás quando a porta do café se abriu de repente.

Uma mulher entrou quase como se tivesse sido arremessada pelo vento.

Cachos escuros escapavam ao redor do rosto, a pele marrom iluminada pela claridade fria da manhã, e os olhos castanhos encontraram os meus antes que ela recuperasse o fôlego. Ela soube quem eu era antes mesmo de eu levantar a mão.

— Meu Deus — disse, atravessando o café com passos apressados. — Sinto muito. Eu não queria me atrasar. É a minha primeira vez em Nova York e eu achei que tinha entendido o trajeto, mas virei na rua errada, depois entrei no lugar errado, depois percebi que estava andando na direção contrária e...

Ela parou diante da mesa, como se finalmente tivesse ouvido a si mesma.

Respirou fundo.

— Desculpe. Estou falando demais. Sei que chegar atrasada a uma entrevista é pouco profissional. Obrigada por ter esperado.

Ela se sentou antes que eu a convidasse.

Observei-a em silêncio por alguns segundos.

Abril Rivera parecia mais jovem pessoalmente. Não jovem demais, mas havia nela uma suavidade que não combinava com a pressa agressiva de Nova York. O cabelo estava um pouco desalinhado, alguns cachos grudados na testa e no pescoço, e a bolsa escorregava do ombro como se ela tivesse corrido metade da cidade para chegar ali.

Havia algo nela que chamava atenção pelo contraste. Talvez o modo como agradeceu ao atendente mesmo estando atrasada. Talvez a sinceridade aberta no rosto, a pressa sem arrogância, a falta daquela armadura invisível que a cidade colocava nas pessoas.

Ela não parecia pronta.

Também não parecia falsa.

— Senhorita Rivera? — perguntei.

Amando a BabáHistórias para pegar e não largar. Descubra agora