Capítulo 37 - Leon

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Domingo


Eu quase não dormi.

A villa estava silenciosa e cada ruído pequeno parecia atravessar o quarto como um aviso. O vento nas janelas. A água distante. O ranger leve da madeira. Em algum momento da madrugada, levantei para verificar a porta, depois voltei para a cama, depois levantei outra vez para ver Emma.

Ela estava dormindo.

Mesmo assim, meu corpo continuou em alerta.

Depois do susto do dia anterior, eu já não confiava no silêncio. Durante anos, silêncio tinha sido uma coisa confortável para mim. Era onde eu trabalhava, pensava, existia sem precisar explicar nada a ninguém. Agora, parecia apenas o espaço onde algo podia dar errado sem que eu percebesse.

E havia Abby.

Abby e a mala.

Abby dizendo que precisava ir embora.

Abby prometendo apenas o dia seguinte, como se amanhã fosse tudo o que ela conseguisse me entregar sem se partir ao meio.

Fiquei deitado olhando para o teto enquanto a claridade começava a crescer atrás das cortinas. Eu tinha passado tempo fugindo de conversas difíceis, mas naquela manhã não havia para onde fugir. Emma precisava de mim. Abby ainda podia ir embora. E eu, pela primeira vez em muito tempo, não tinha um plano capaz de colocar tudo em ordem.

Quando desisti de fingir que ainda poderia dormir, levantei e fui primeiro ao quarto de Emma.

A porta estava entreaberta. Empurrei devagar.

Ela estava ali, segura, respirando, apenas dormindo como qualquer criança deveria estar numa manhã de férias.

A visão dela deitada de lado, com o cabelo espalhado pelo travesseiro e uma mão presa sob a bochecha, fez alguma coisa dentro de mim relaxar com tanta força que precisei apoiar a mão no batente.

Fiquei olhando por tempo demais, porque Emma abriu os olhos e me encontrou parado na porta.

— Pai?

A voz dela saiu rouca de sono.

— Desculpa. Eu não queria acordar você.

Ela piscou algumas vezes, depois puxou o cobertor até o queixo.

— Você veio ver se eu tinha fugido de novo?

A pergunta não tinha maldade. Talvez por isso doesse.

Entrei no quarto e me sentei na beirada da cama.

— Vim ver se você estava bem.

— Eu estou.

— Eu sei. Mas eu precisava ver.

Emma ficou quieta por alguns segundos, olhando para os próprios dedos sobre o cobertor.

— Você ficou muito assustado ontem?

— Fiquei.

— Tipo muito, muito?

— Mais do que eu consigo explicar.

Ela engoliu em seco.

— Eu não queria assustar você.

— Eu acredito. Mas assustou.

Ela assentiu devagar. O rosto dela ainda tinha aquela seriedade antiga, mas havia algo mais aberto ali agora. Como se, aos poucos, estivesse aprendendo que podia ficar numa conversa difícil sem virar gelo.

— Eu achei que vocês iam ficar bravos e esquecer o relatório.

— Eu fiquei bravo. Também fiquei com medo. E o relatório continua sendo importante, porque é importante para você.

Amando a BabáHistórias para pegar e não largar. Descubra agora