Caminho Tortuoso

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O campus é incrível, Juli. É tão amplo e acadêmico. Nem parece que vai ser meu pesadelo por cinco anos. No momento é apenas empolgante — Danilo tagarelou, tão animado que eu podia visualizar seus olhos esverdeados arregalados e o sorriso que rasgava o rosto.

Ajustei o AirPods no ouvido ao sentir que escorregava, sem parar de trotar na calçada. Lara estava a alguns passos na minha frente, distraída pela música que ouvia e impelida por seu condicionamento físico melhor que o meu. Apesar do ar gelado da manhã, eu já começava a suar por baixo da jaqueta fina, a leggin e o tênis. Quando saímos de casa às sete da manhã para dar voltas no quarteirão pensei que congelaria nos trajes, insuficientes para me proteger da temperatura, naquele momento, porém, meus músculos esquentavam com o esforço, ainda que o ar se condensasse expelido por minha boca e narinas.

Se eu pudesse escolher desejaria dormir todas as horas daquela fatídica segunda-feira. Mas o constante despertar durante a madrugada enfim me fatigou às seis da manhã. De repente as paredes pareciam me espremer e eu soube que precisava me movimentar. Lara passara a noite comigo e levantou em prontidão assim que abandonei o colchão. Ela me manteria sob sua supervisão pelo menos o dia todo, eu sabia.

— Você será um dos melhores alunos da classe, como sempre — pontuei.

Gentileza sua. Assim que voltar você deve visitar as dependências comigo. Quem sabe ano que vem não te arrasto para cá?

Não seria má ideia afinal, me enfiar numa faculdade com meu melhor amigo em nossa grande São Paulo — que mais parece um país. Ísis estava matriculada na universidade pública mais concorrida da cidade, com reconhecimento a nível internacional — não podia ser diferente, observando seu esforço honroso e quase desumano no ano passado. Danilo em uma universidade privada, com reconhecimento honroso na academia brasileira. Por meu desempenho em exatas, eu duvidava muito que fosse aceita em uma federal, minhas chances seriam melhores na particular.

Era meu plano de qualquer forma. Na verdade, até poderia ser para o segundo semestre desse ano. Provavelmente fora um erro não prestar para janeiro. Agora eu estava sem publicação e sem faculdade. Um mero vegetal no exterior.

Se ao menos não fosse obrigada a pagar indenização a certas pessoas, poderia tirar um ano sabático viajando pelo mundo.

... Júlia? Você está me ouvindo, mulher? — Danilo chamou minha atenção, impaciente.

— Sim, estou — respondi de pronto, fazendo a curva para a próxima rua. Não havia movimento por ali também, as casas se revestiam de uma névoa sonolenta.

Você sabe porque eu te liguei. Já está pronta para me dizer como está? O que foi que aquele palhaço te fez? — Perguntou sem mais rodeios. Eu havia perdido sua introdução com meus devaneios, mas depois de preparar o terreno, Danilo é conhecido por ser uma pessoa direta. Isso não tornava seu tom menos compreensivo e carinhoso, embora sua devolutiva fosse cruamente honesta.

Suspirei e acelerei o passo, acompanhando o ritmo da minha perturbação. Eu provavelmente teria que repetir tudo para Ísis, mas decidi lhe contar de uma vez, empurrando as palavras pontiagudas para fora da minha garganta, esperando que assim parassem de espetar meu coração. Momentaneamente foi bom, pareceu aliviar a pressão. Como descobri mais tarde, o efeito não era duradouro.

Eu sabia o que Danilo pensaria. Aliás, a notícia lhe vinha quatro dias após meu relato de que o beijei. Ele me avisara que não era uma boa ideia — acaso havia me esquecido da estratégia? Não podia me envolver ou ele acabaria se aproveitando da minha vulnerabilidade para me atingir. Agora eu parecia uma criança estúpida que havia rejeitado o conselho dos pais de não enfiar o garfo na tomada e no fim tomou choque. E quando ele me jogasse isso na cara, eu não me importaria, afinal, ninguém podia me desprezar mais do que eu mesma. Burra e inconsequente.

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