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Dias depois

Cíntia

Desde a morte do Roger todos tem conseguido respirar melhor, serem mais livres sabe ? Todos os dias eu acordava esperando o telefone tocar e alguém me dizer o pior sobre um dos meus amigos ou da minha família.

Na manhã seguinte eu chorei muito, um choro de alívio, um choro de liberdade e isso não tem preço. Eu sou livre agora, posso ir onde quiser sem ser julgada e isso é maravilhoso.

Única coisa chata nisso tudo foi que o rosto do Marquinho foi estampado em todos os jornais. Os repórteres diziam a todo tempo que era uma disputa por território e que meu compadre era o cabeça do confronto, quando na verdade não existia líder, foi uma cobrança do tribunal do tráfico.

Mas mesmo assim ele teve que passar uns dias intocado. Com a pressão da midia a polícia se sentiu no dever de fazer operação quase toda semana desde o ocorrido, tudo k.o, receberam dinheiro do Torugo e disseram pra imprensa que o criminoso já deve estar fora do estado.

Hoje eu tô indo no hospital ver o Adalberto, pelo visto a entrega dele ao álcool teve consequências. Minha avó veio falar que ele queria me ver e eu tô indo, não sei se essa é a última vez que posso vê-lo.

O sofrimento de dona Marluce é evidente, tenho que brigar muito com ela por telefone pra se alimentar, ela tá mais magra, mais cansada, mais calada do que costuma ser.

Tô com muita pena da minha avó, acho que foi mais por isso que não relutei em ir visita-lo no hospital.

Abri mão dos meus horários da manhã só pra vir aqui, mas não disse a ninguém o motivo. Tô me libertando um pouco desse lance de dar satisfações aos outros o tempo todo por estar correndo risco de vida.

Marluce - Que bom que você veio filha! _ me abraçou forte e eu retribui.

Cíntia - Onde ele tá vó ?

Marluce - Tá ali, vem comigo....

Andei com ela pelos corredores e nós entramos num quarto, ali eu pude perceber a causa da aflição da minha avó. Adalberto tá abatido, mais magro, muito longe daquela aparência e memória que eu tive em boa parte da minha vida.

Adalberto - Você veio Cíntia! _ se esforçou pra sorrir e eu sorri de volta.

Cíntia - Vim sim, queria saber o que você tem pra me dizer.... _ segurei as mãos dele.

Adalberto - Me perdoa por tudo o que eu te fiz, por tudo o que você passou por minha causa!? _ falou com dificuldade.

Cíntia - Quem tem que te perdoar é o cara lá de cima, eu entreguei todas as dores que você causou em mim pra Ele! _ desabafei aliviada.

Me assustei quando os olhos dele fecharam e o monitor começou a apitar desenfreadamente, fui afastada da sala pela equipe de plantão e quando olhei nos olhos da minha avó percebi que essa foi a última vez que o vimos.

O médico veio constatar a morte, disse que Adalberto lutou pela vida. Ele teve três paradas cardíacas e morreu quando passou pela a última.

Amparei a minha avó em meus braços e ela chorou muito, também me permiti chorar. Lembrei daquele homem que foi importante na minha infância, tentei ao máximo me livrar das lembranças ruins e recordar os momentos bons.

Acho que ele tava esperando o meu perdão pra poder partir, imagina se eu não tivesse vindo ? Iria me arrepender amargamente!

Resolvi as questões burocráticas, levei minha avó pra minha casa e nós passamos o tempo todo grudadas. Minha tia Cláudia veio pra cá, me ajudou a localizar os parentes e avisa-los do enterro.

Tive que dar um calmante pra minha avó escondido, ela tava muito agitada, muito nervosa. Tomei um pouco também, o dia foi muito furioso comigo e com a minha família.

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21/10/2021

Real Essência - Finalizado Histórias para pegar e não largar. Descubra agora