Hereditariedade

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Capítulo 22: Hereditariedade

​A vida tem sua própria maneira de cobrar pela herança recebida dos antepassados. Ela costuma ser cruel e incisiva... Os escravos pagam com suas liberdades, com grandes humilhações, com todo tipo de sofrimento. Não há ganho para quem recebe essa herança dos pais africanos; a cor da pele é uma dádiva escancarada aos olhos de quem a usa para escravizar. Já a pele branca é uma herança bem-vinda para aqueles que a recebem, pois a liberdade é a preponderância sobre seus subjugados.
​A justiça divina é correta e imparcial, sempre trabalha em favor de todos; por isso, o senhor Samuel vem desenvolvendo a herança recebida de seu pai e de seu avô. Acessos de loucura e demência estão se tornando corriqueiros... Seu pai, em um estado pleno de loucura, matou sua mãe. Logo após recuperar a consciência, matou um negro da senzala para colocar a culpa do assassinato sobre ele. Naquela época, o senhor Damião era o feitor da fazenda e o ajudou a encobrir os dois crimes. O fazendeiro o recompensou com o sítio e algum dinheiro para ele começar o seu quinhão.
​Samuel anda de um lado para o outro, falando sozinho e gesticulando. Os pesadelos estão sendo a cada noite mais recorrentes. Quando o dia amanhece:
​- Castilho, traga o negro Leôncio aqui!
- Sim, patrão.
​Ele busca o escravo e o coloca à frente da escada da casa, onde o senhor Samuel o aguarda.
​- Negro Leôncio... vejo que estais muito bem. Diga-me, estavas pensando que havia me esquecido de você?! Ou talvez pensando que eu havia esquecido o que fizestes com meu filho! Não, não me esqueci... nem me esqueço jamais! Castilho, jogue esse negro infeliz dentro do fosso dos dejetos... Quero ver quanto tempo ele irá aguentar nadar no meio dos excrementos.
​O feitor olha com nojo por ter que colocar o negro lá dentro, mas quem manda é o senhor Samuel; o jeito é obedecer sem reclamar. Ele puxa o escravo e diz:
​- É, negro Leôncio... jurava que o patrão o havia deixado em paz; confesso que me enganei. Não o esqueceu, deveras.
​O fosso dos dejetos é um buraco de uns dois metros e meio, onde são jogadas as fezes e a urina dos senhores da casa. Há o quarto de banho no segundo andar e, nos quartos de dormir, vasilhas adequadas chamadas de penicos, de ferro ou porcelana. Por não haver água encanada ou saneamento básico, há um escravo que faz o recolhimento desses recipientes fétidos; esse escravo é chamado de "tigre". O buraco é coberto por um tampo de madeira que todos os dias é arredado para o despejo do conteúdo.
​Leôncio é jogado com as algemas de ferro em suas mãos, afundando até a cintura. Vermes se movimentam em sua pele, em sua roupa... o cheiro é insuportável! A impossibilidade de sair daquele buraco é imensa; a possibilidade de morrer ali é muito maior. O tampo é recolocado, e a escuridão se faz presente.
​Enquanto isso, o negro Miro conversa secretamente com todos os seus irmãos de cor, implantando a ideia de fuga. O que ele ouviu dos coronéis sobre matarem todos os escravos caso houvesse a libertação assustou-o deveras. Uma escrava da casa conseguiu um pedaço de uma lima para que serrassem o cadeado das algemas de Leôncio. Todos os negros lhe são solidários; a morte de seus filhos e a venda de sua mulher, somadas à maldade praticada contra ele, estão plantando nos corações o desejo de fugir e se livrar do maligno senhor.

​No Sítio...

​Ayana ajuda a jovem Catarina a se banhar; ela e Selma não param de verter lágrimas.
​- Sinhazinhas, isso vai passar, esse medo vai acabar... vocês duas vão ver.
- Aquele monstro endemoniado! Ele teve o que mereceu! Merecia uma morte bem pior... - desabafa Catarina.
- Fico grata por ter matado ele, Ayana.
- Sinhazinhas, ele quebrou a tranca do meu quarto, me forçou a noite toda, ameaçou meu filho... Eu deveria tê-lo matado hoje de manhã - lamenta a escrava.
- Ele estava nos esperando, foi tudo premeditado! O que farei? Não sou mais moça virgem! Ninguém há de querer se casar comigo... - chora novamente Catarina.
​A tarde chega. Os três negros vêm do serviço e, no meio do caminho, encontram o corpo decapitado de Mané.
​- Meu Deus! O que é isso?!
- É o Mané - fala Bidú.
- Quem fez isso com ele?
- Nós não sabemos e não queremos saber! Vamos embora daqui, se não sobra para a gente.
- É verdade. Sempre foi assim, sobra para a gente.
​Eles vão embora e fingem que não viram nada. Ao chegarem à porta da cozinha, Horácio chama Ayana.
​- Nega Ayana!
- Horácio, a janta vai demorar um pouquinho. Depois manda o Bidú vir buscar.
- Nega, você viu o Mané por aqui?
- Não. Ele está aqui no sítio?
- Não sei, parece que ontem eu vi ele zanzando por perto.
- Espero que não seja ele.
- É, talvez não seja mesmo.
​Os três vão para o rio banhar-se, e Ayana volta para o quarto para ajudar Catarina a se vestir.
21/10/21

Maria Boaventura.

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