Asas do colibri

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Asas do colibri

Capitulo 104

Quando se tem as asas podadas, o pássaro se torna refém de sua condição.
O chão não é seu verdadeiro lar, contudo o pássaro se submete ao martírio de caminhar sobre seu exílio. Todavia, quando o tempo é chegado e suas asas crescem, toma posse de sua liberdade e voa para imensidão azul do céu, onde está seu seguro abrigo.

Capital

Dona Beatriz parte com seu coração aos pedaços por deixar suas filhas na fazenda, porém, ela sente que tem o dever de ver pessoalmente o que seu marido tenha aprontado para estar preso na capital. Mesmo sabendo que ele não é merecedor de suas preocupações, como uma boa mulher, ela se preocupa.

Chegando à vila ela vai ao banco mostra o telegrama para o gerente e faz a retirada. O trem já está na estação, ela embarca e parte para à Capital. Quando chega, aluga um coche e vai imediatamente para a delegacia.
_ Senhor delegado, tem uma senhora lá fora que diz ser a esposa do fazendeiro que está preso.
Diz o soldado ao delegado.
_ Ora, mande-a entrar!
_ Sim, senhor.
_ Boa tarde, senhor delegado.
_ Boa tarde, senhora. Diga-me seu nome, por favor.
_ Sou a senhora Beatriz Maria de Albuquerque.
_ Queira se assentar, por favor.
_ Agradeço, mas gostaria de ver o meu marido, se for possível.
_ Permitirei, mas antes, gostaria de fazer lhe algumas perguntas.
_ Cometi algum crime, estou sendo presa?
O delegado da um sorriso falso e responde:
_ Deveras, não!
Serão somente algumas perguntas...
_ Desculpe- me senhor delegado, sem conversar com meu marido não lhe responderei nenhuma pergunta.
O delegado olha sério para ela, chama o soldado e lhe manda conduzir Beatriz até à cela que Samuel está. Mal sai o soldado acompanhado por Beatriz e o delegado pensa consigo: _ O mundo está mesmo perdido!
Ninguém mais me respeita...

Santa Casa de Misericórdia

Doutor Cartter reúne o conselho do hospital para debaterem os procedimentos realizados pela doutora Aurélia. Após espanar o ocorrido e citar o doutor Geraldo em sua dissertação, doutor Geraldo( testemunha ocular do ocorrido) toma a palavra para si e explica com minuciosos detalhes o que ocorreu antes, durante e após o procedimento de transfusão de sangue. Exalta sem medidas a medicina contemporânea exercida pelas duas médicas e comenta sobre a obsoletidade e procedimentos retóricos ainda implantados no hospital pela alta cúpula da medicina.
Doutor Cartter fica estérico, todavia o conselho vê o ocorrido com bons olhos e pondera que ao invés de ser repreendido, os procedimentos usado pela doutora Aurélia, deve ser registrado em um artigo e publicado nos folhetins de todo império. _ Ora, doutor Cartter, convenhamos que algo tão inovador elevará o padrão de nossa instituição; o que certamente acabará em ser um grande reconhecimento em todo império, quiçá no mundo! A doutora Aurélia e o nosso hospital entrará para padrões nunca imaginados. Diz doutor Edmundo o patrono da instituição.
Doutor Cartter fica visivelmente irado e diz em alta voz:
_ Nós que exercemos a medicina à décadas, ficaremos obsoletos!
Seremos descartados como lixos, quem mais buscará nossos préstimos?
_ Se for para o bem dos pacientes e reconhecimento de nosso hospital, que sejamos esquecidos, doutor Cartter! Estamos vendo uma nova leva de médicos muito mais estudados e dedicados. Então, que contratemos essa nova geração e tratemos de nós aposentar.
Rebate doutor Geraldo.
_ Pelo visto, terei que me recolher a minha insignificância e ainda pagar a aposta que fiz com aquele negro advogado.
_ Certamente, meu amigo, certamente.

Delegacia

Dona Beatriz entra por um corredor escuro e úmido, chega até as celas onde Samuel e Serafim estão presos. Ela caminha com passos firmes e seu marido a olha com olhar de espanto.
_ Beatriz! O que diabos fazes aqui?
_ Vim fazer o que você mandou; trouxe o dinheiro para o advogado.
_ Não te mandei vir aqui pessoalmente! Aliás, quero que vires sobre seus pés e volte imediatamente para a fazenda.
_ Não irei! Não irei sem antes lhe arrumar um bom advogado que o defenda, e você saia dessa esparela em que se meteu.
_ Mulher, tu não me irrite! Sabe do que sou capaz!
_ O sei muito bem, por esse motivo, ficarei.
_ O que queres dizer com isso? E quem te deu liberdade para falar comigo nesse tom?
_ Esta liberdade você me deu quando me deixou sozinha com minhas filhas naquela fazenda...
E para que? Para correr atrás de um escravo liberto. Ou você está é atrás da mulher dele?
_ Não me amofine! O que eu faço ou deixo de fazer, não é de sua conta! Agora, arrume o advogado; que seja o melhor da Capital e logo após, vai embora!
_ Não irei! Somente sairei daqui quando tudo isso acabar.
Samuel esbugalha os olhos e voa nas grades da cela, Beatriz se assusta e afasta rapidamente.
O soldado grita para Samuel:
_ Acalme-se, se não se acalmar terei que entrar nessa cela, garanto que o senhor não irá gostar nenhum pouco.
Serafim solta uma risada estridente.
O soldado olha para Beatriz e diz:
_ Vamos senhora, acabou a visita.
Ela sai com seu coração aos pulos, sentiu medo de seu marido, conhece bem as loucuras cometidas por ele. Sai e não passa na sala do delegado.
Mal ela sai do bloco de celas e Serafim diz a Samuel:
_ É, senhor Samuel, parece que as asas da colibri cresceram.
Não queria estar em sua pele, mulher rancorosa é pior que o demônio encarnado!
O senhorzinho está em mal lençóis.
Ri muito e isso enfurece Samuel.
_ Não me amofine, seu crioulo infernal!
_ Posso até ser crioulo, ser infernal, mas a corda vai balançar em seu pescoço branco, bem mais depressa do que no meu crioulo!
Ri novamente e fala satisfeito:
_ O que o senhor fez com aqueles negrinhos, nem eu que sou filho do cramunhão, teria coragem de fazer. Três criancinhas inocentes?!
O senhor é o próprio capeta!
_ Cale-se!
_ Faz-me calar!
Vê se tem essa coragem.
_ Eu vou matá-lo com minhas próprias mãos.
_ Só falta uma coisa pra isso acontecer, coragem! E isso te falta de montão...
_ Cale-se! Pare de falar...
_ Como já disse, vem fazer esse crioulo se calar.
E Samuel ficou enfurecido, porém as grades o empediam de consolidar sua fúria.
Serafim ria e se esbaldava com a loucura de Samuel.

_ Aonde está a esposa do fazendeiro?
_ Já foi, senhor delegado.
_ Como já foi? Eu queria lhe fazer algumas perguntas.
_ Ela passou direto e pegou um coche que a estava aguardando.
_ Você só não é mais burro por falta de penas, soldado!
_ Desculpe-me, senhor. Não sabia que o senhor a queria interrogar.
_ Suma daqui! Estou rodeado de mentecaptos incompetente!
Diz o delegado furioso.

Escritório Isonomia

Dona Beatriz deixa a delegacia e pergunta ao cocheiro:
_ Senhor, podes me dizer aonde eu consigo encontrar um bom advogado?
_ Senhora, imagino que no centro da cidade, pois lá existe muitos escritórios, creio que seja o melhor lugar para encontrar um advogado.
_ Muito bem, vamos até o centro então.
Beatriz chega ao centro da cidade e observa muitas placas de advogados, porém uma grande placa lhe chama à atenção. ( Isonomia advocacia em geral)
Ela entra na recepção e é atendida pelo jovem advogado doutor Getúlio.
_ Sente-se por favor, senhora?
_ Senhora Beatriz Maria  Soares  de Albuquerque.
_ Em que podemos ajudá-la?
_ Meu esposo está preso por cometer alguns desatinos, preciso de um bom, bom não, um excelente advogado para representá-lo.
_ A senhora veio ao lugar certo! Temos os mais experientes e competentes advogados.
_ Preciso do melhor.
_Bom, temos o doutor José Jeronimo Munhoz, ele é imbatível.
_ Gostaria de ser atendida por ele, então.
_ Ele não se encontra no momento, todavia, seu sócio doutor Damasceno é tão bom quanto.

Getúlio mal acaba de falar e chega Damasceno.
O doutor Damasceno se intera do ocorrido e diz a dona Beatriz:
_ Senhora Beatriz Albuquerque, será um prazer realizarmos a defesa de seu marido...
E a ecertando todos os trâmites, parte para a delegacia conhecer seu mais novo cliente.

Chegando à delegacia...

_ Boa tarde, senhor delegado.
Vim conversar com meu cliente, senhor Samuel Albuquerque.
_ A esposa foi muito rápida.
Soldado, leve o advogado até a cela do senhor Samuel.
Chegando lá...
_ Boa tarde, senhor Samuel! Sou doutor Damasceno...
Seu advogado.
_ Vejo que Beatriz serviu para alguma coisa que preste.
Fala Samuel em um tom sarcástico.
O advogado entra na cela e se assenta sobre a cama e começa as perguntas:
_ Senhor Samuel, preciso que me conte o que houve, por favor, me diga tudo nos mínimos detalhes.
Preciso saber de todo o ocorrido para montar seu processo de defesa.
_ ...esse delegadinho de merda!
_ Desculpe senhor Samuel, preciso
Saber o crime que estais sendo acasusado, apenas o ocorrido.
_ Diz aí, conta para seu advogado as merdas que fez! Conta como matou três crianças, conta que mandou matar o pai das crianças e que currou a mulher dele. Conta tudinho!
Conta que sonha em ver o negro Leôncio com a boca cheia de formigas...
Serafim da uma enorme gargalhada.

_ Cala essa boca! Cala!
Grita Samuel.

_ Leôncio? O senhor é o tal fazendeiro?
Damasceno levanta obruptamente.
_ Soldado abra a cela, por favor.
O soldado abre a cela e Damasceno sai.
_ Do que está falando doutor?
Fala Samuel olhando o advogado sair da cela.

_ Entendi, o mestiço aí é o tal Serafim que tentou matar o senhor Leôncio. O senhor é o fazendeirinho que... Samuel! É claro!
Como fui relapso...
Peço desculpas, porém não poderei pegar sua causa.
Fala Damasceno, recolhendo em sua maleta os papéis, a pena e o tinteiro.
_ Que história é essa, doutor advogado?
_ Não posso defende-lo, pois nós, do meu escritório, faremos a sua acusação, e não podemos defender e acusar o mesmo réu.
Passar bem!
Espero que o senhor consiga um excelente advogado, caso contrário, a forca no seu pescoço será mais que certa! Meu sócio, doutor José Jeronimo costuma não perder nenhuma causa judicial e para sua desgraça, ele quer ti ver balançando na forca.

Maria Boaventura.


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